Por que os locais lendários de Adis Abeba estão desaparecendo?

Durante 17 anos, o Fendika foi o lugar onde a tradição eskista de Adis Abeba soava mais alto. O dançarino Melaku Belay transformou esse clube de Kasanchis, fundado em 2005, na ponte mais clara entre a tradição dos azmari bet e a cena contemporânea. A reurbanização encerrou essa história em 2022, empurrando o Fendika para um canto do Hyatt Regency, em Bole. « É de partir o coração. É uma decepção. Como a gente se cura emocionalmente disso? », contou Belay à OkayAfrica.

O SHIFTA, restaurante afro-caribenho e polo criativo cofundado por Feben Kassaye, fechou em 2023 por um motivo mais comum: aluguel e despesas operacionais acabaram superando o que o espaço gerava. « Criei um espaço no qual eu queria existir », dizia Kassaye sobre o projeto, uma frase que soa diferente agora que o lugar já não existe.

O sinal mais claro da velocidade dessa mudança é o Kebelezero. Robel Yohannes e Akilas Solomon abriram esse galpão em Bole em fevereiro de 2024. Seis semanas depois, a reurbanização levou o prédio.

Quem está construindo o plano B da cena?

Ninguém em Adis Abeba está esperando um proprietário resolver o problema. O Kebeleradio, uma parceria com a Sheger Studios, monta sets de DJ dentro de um estúdio de rádio em funcionamento e transforma pontos da cidade em locais pop-up com pouquíssima antecedência. O Kelemsounds promove shows acústicos no Hilton de Adis Abeba, levando o hábito do som ao vivo para dentro em vez da esquina. Espaços novos continuam abrindo mesmo assim: o Fabrica, fundado por Abiy Solomon e Selam Minaye, abriu no fim de 2025; o Moseb Music Center, dirigido por Tasew Wendim, abriu em 2023; o Venue Warehouse, tocado por Della e Gigi, abriu em 2022; o Hanu Bet, cofundado por Haymanot Honelgn, funciona desde 2021. O The Lab, a série focada em DJing conduzida por Yohannes Hadish, continua rodando sem depender de um único endereço, e o Hager Soul, plataforma de Yohana Sahle, transforma talentos descobertos nas redes sociais em datas reais.

O som sobrevive mesmo com os palcos sumindo?

Do lado da produção também ninguém espera. O Ethiopian Records, nome artístico do produtor Endeguena Mulu, passou mais de uma década moldando um estilo eletrônico próprio, batizado Ethiopiyawi Electronic, construído e levado em turnê bem antes de essa turbulência imobiliária começar. É essa diferença que vale a pena observar: os locais físicos de Adis Abeba vão sendo arrasados pela mesma lógica de reurbanização que atingiu o Griessmuehle em Berlim ou o circuito de lofts do Brooklyn anos atrás, mas a cultura de produção da cidade segue se acumulando, não importa qual prédio a abrigue neste mês.