O que mudou mesmo na Afro Nation este ano?
A Afro Nation Portugal funcionou com três grandes palcos na sexta edição. O Lit Stage carregava os cabeças de cartaz de Afrobeats. O Piano People continuava a tenda de amapiano, com Uncle Waffles, Kelvin Momo, Focalistic e Madumane. A novidade é o Afrotronic, e é aí que está o sinal: um palco inteiro entregue ao som eletrónico do continente, Afro House, Afro Tech e gqom, com Kitty Amor, Afrokillerz e Epidemia no cartaz e tomadas de dia no beach club NoSoloÁgua.
Não é um mero ajuste de programação. A Afro Nation sempre enfiou house e gqom nalgum canto da grelha. Levantar um palco com nome próprio à volta desse som, ao lado do Afrobeats e do amapiano em vez de por baixo, é um organograma, e um organograma diz aquilo que um festival acha que está a vender.
Porque é que um palco à parte faz diferença?
Porque os clubes perceberam isto primeiro. Em Ibiza, o Afro House já não é uma sala secundária. Black Coffee toca no Hï Ibiza todos os sábados de maio a outubro, o oitavo ano seguido à frente da sua noite de referência, e as salas de Afro House multiplicaram-se pela ilha. São lugares de cabeça de cartaz, não aquecimentos. Os festivais que se fizeram um nome no Afrobeats e no amapiano eram precisamente os atrasados, com a house arrumada num canto do palco principal ou numa faixa de praia.
O Afrotronic fecha essa distância. Dá ao Afro House e ao Afro Tech uma montra de primeira dentro da maior plataforma que a música africana tem na Europa: orçamento a sério, um lugar a sério onde ser contratado e uma escada de crescimento que há um ano não existia.
É o Afro House a separar-se do Afrobeats?
Depende de a quem se pergunta. O amapiano teve a sua tenda primeiro, e ninguém disse que o Piano People enfraquecia o género. Concentrou-o. Agora o Afro House recebe o mesmo tratamento. Lido de uma forma, um palco dedicado é reconhecimento: o som pesa o suficiente para encabeçar nos seus próprios termos, e não como aquecimento antes de um set de rap. Lido de outra, traçar linhas duras entre Afrobeats, amapiano e Afro House fecha num muro uma cena que sempre transbordou por cima dessas fronteiras. As duas coisas podem ser verdade. O que não está em dúvida é que o maior festival de Afrobeats do calendário decidiu que o som eletrónico precisava de uma sala própria.



