Annie Mac passou toda a carreira do lado da nova música: uns vinte anos a descobri-la, a tocá-la, a colocar produtores desconhecidos numa rádio nacional. Por isso, quando o diz em voz alta, pesa. Nunca foi tão fácil fazer música, defende, mas a que custo? Num clip publicado no Instagram em junho de 2026, a apresentadora e DJ pôs uma frase no mal-estar que atravessa cada conversa de produtores.
O que está Annie Mac a dizer, afinal?
A sua ideia não é uma recusa da tecnologia. É sobre o valor. Quando uma faixa terminada e convincente pode cair de uma caixa de texto em minutos, o atrito que antes filtrava a música, os anos a aprender um instrumento ou um programa, os discos falhados, o custo e a disciplina do estúdio, deixa de fazer o seu trabalho silencioso. Esse atrito nunca foi só um obstáculo: fazia parte do que dava sentido a um disco. Tire-o e a música fica mais fácil de fazer e, sugere ela, mais fácil de ignorar.
«Nunca foi tão fácil fazer música. Mas a que custo?»
Porque é que isto cala agora?
Porque as ferramentas finalmente alcançaram o discurso. Plataformas generativas como o Suno e o Udio cospem já faixas completas e credíveis a partir de um único prompt, e os lançamentos com IA chegam aos serviços de streaming mais depressa do que alguém os consegue conferir. A Apple Music começou a sinalizar e a limitar o áudio que se apoia demasiado na IA; outras plataformas relataram uma enxurrada de material de IA. Essa enxurrada é o pano de fundo da pergunta de Mac: não uma hipótese, um congestionamento no presente.
Isto é apenas elitismo?
É esse o debate, e a resposta honesta depende de a quem se pergunta. Um lado ouve democratização: as barreiras caem, qualquer um pode fazer uma faixa, e isso é bom. O outro ouve desvalorização: se toda a gente pode tirar uma faixa num instante, o chão abre-se sob quem vive disso. Mac não está a puxar a escada atrás de si, fez carreira a estendê-la aos recém-chegados. Pergunta o que perdemos quando a escada desaparece por completo.
Com que autoridade fala Annie Mac?
Ganhou o microfone. Macmanus passou cerca de dezassete anos na BBC Radio 1, uma das vozes mais influentes da música de dança, capaz de revelar um produtor num único programa, antes de se afastar em 2021. Hoje apresenta o podcast Changes, dirige a série de festas Before Midnight, escreveu romances e recebeu um doutoramento honoris causa em 2024. Não é uma tecnófoba a queixar-se do futuro. É alguém que passou décadas a defender o novo e que pergunta, a sério, quanto vale o novo.



