Um filme-colagem sueco de 1998 não para de reaparecer nos camarins de DJ e nos grupos de conversa de madrugada, e não tem nada a ver com um selo famoso ou um set viral. Lucky People Center International, dirigido por Erik Pauser e Johan Söderberg, passou dois anos dando a volta ao planeta para montar juntos xamãs, monges, artistas e banqueiros num único fluxo pulsante, sobre a música eletrônica dos próprios diretores. O coletivo por trás do filme não saiu de uma escola de cinema. Nasceu de uma boate clandestina em Gotemburgo e depois se mudou para Estocolmo, virando uma formação musical e artística. Essa origem importa, porque a verdadeira tese do filme a pista de dança já sabe no corpo: quem se move junto, se pertence.
Sobre o que é, de fato, Lucky People Center International?
No papel é um documentário. Na prática está mais perto de um set de DJ de noventa minutos feito de rostos humanos. Pauser e Söderberg atravessaram cerca de vinte países atrás de gente que tinha se posicionado contra o rumo que a vida moderna tomava com o ano 2000 à porta. Aparece o mestre tibetano Sogyal Rinpoche. Também o ativista Bruno Manser, o artista russo Alexander Brener, um banqueiro de Tóquio que faz música noise nas horas vagas, uma dançarina indiana, um curandeiro do Novo México, guerreiros maori em pleno haka. A Variety, que o resenhou de Vancouver em 1998, chamou-o de uma mistura de performances, desabafos rimados e imagens impressionistas, e avisava que a montagem cortada podia mergulhar num leve transe. Esse transe é justamente o ponto. O filme trata o ritmo como a única língua que sobrevive à tradução.
O filme faz do ritmo, e não da fala, a única coisa que todas as culturas em cena já compartilham.
Por que mover-se no ritmo ao lado de desconhecidos é tão bom?
A ciência acabou alcançando o instinto. O historiador William McNeill, marcado pela marcha cadenciada do exército e pelo estranho barato que ela lhe deixara, escreveu Keeping Together in Time em 1995 e deu um nome à sensação: o vínculo muscular, aquela solidariedade eufórica que inunda um grupo quando os corpos viram um só. Décadas depois, uma equipe de Oxford (Bronwyn Tarr, Jacques Launay, Emma Cohen e Robin Dunbar) levou isso ao laboratório. Num estudo da Royal Society de 2015, os participantes dançavam em sincronia ou não: tanto a sincronia quanto o esforço físico elevavam, cada um por conta própria, o limiar de dor, um indicador confiável de endorfinas, ao mesmo tempo que reforçavam o senso de pertencimento entre os dançarinos. Um experimento de silent disco de 2016 confirmou que o efeito analgésico e agregador só aparecia quando as pessoas se moviam de verdade no ritmo. As endorfinas são os opioides do próprio corpo. Uma pista lotada encaixada num bumbo é, em termos bioquímicos, uma sala de gente ficando suavemente alta umas com as outras.
O que isso tem a ver com o house e a cultura rave?
Tudo, e direto. Em Dancing in the Streets (2006), Barbara Ehrenreich segue a dança extática coletiva dos gregos que adoravam Dioniso até o carnaval medieval, passando por todos os poderes que tentaram apagá-la, para chegar a uma ideia simples: a vontade de se perder numa multidão é antiga, reprimida e sempre volta. Émile Durkheim chamava a eletricidade compartilhada do ritual de efervescência coletiva e a colocava na raiz da própria religião. Nada disso é metáfora do que acontece numa noite inteira no Berghain, num galpão de Lagos ou ao ar livre em São Paulo. É a mesma engrenagem. A cultura house não inventou o transe coletivo. Ela o reconstruiu para cidades que o tinham proibido em silêncio e lhe deu uma batida em quatro por quatro. Lucky People Center International, feito por gente que vinha da pista, entendeu isso há trinta anos e filmou antes que alguém pudesse provar.



