Barbara Butch, a DJ francesa que protagonizou um dos momentos mais comentados da cerimônia de abertura das Olimpíadas de Paris 2024, faria uma noite eletrônica na La Lune des Pirates, em Amiens, no dia 19 de setembro, dentro da semana de inauguração dessa nova casa de 500 lugares. O show não vai acontecer. A casa explicou à France 3 que não reunia mais «as condições necessárias para a segurança e o acolhimento do público», dias depois do apelo ao boicote lançado publicamente pela delegação local da Association France Palestine Solidarité (AFPS).
O que exatamente a AFPS Amiens contestava?
O apelo de 3 de setembro não visava os sets de Barbara Butch. Visava uma carta que ela havia assinado em apoio à chamada lei «Yadan», um texto contra o antissemitismo desde então retirado. A AFPS considera que essa lei equiparava a crítica à conduta de Israel em Gaza, o que chama de discurso anti-genocídio, ao antissemitismo, e sustenta que o apoio de Barbara Butch a esse texto a tornava inaceitável para uma casa situada em um bairro popular de Amiens. Dias depois, sem que o show sequer tivesse acontecido, a AFPS Amiens escreveu no Instagram que «o apelo ao boicote funcionou, o show está cancelado», segundo a France 24.
Por que ministros estão se envolvendo em uma história de noite eletrônica?
Porque o cancelamento não ficou restrito ao âmbito local. O ministro do Interior Laurent Nunez afirmou que todas as garantias de segurança necessárias já haviam sido oferecidas, o que contradiz o motivo alegado pela própria casa. A ministra Aurore Bergé foi mais longe, falando em «uma capitulação» em termos bem diretos: «Não se pode, assim, tirar uma artista do line-up por um único motivo: ela é judia, e por ser judia, hoje sofre apelos ao boicote.» Xavier Bertrand, presidente da região Altos da França, foi igualmente direto: «Não se escolhe os artistas que têm o direito de subir ao palco com base em suas opiniões.» O prefeito de Amiens, Frédéric Fauvet, classificou de «inaceitável» esse questionamento da liberdade de expressão, embora tenha dito que a configuração do local não permitia garantir a segurança do evento como havia sido planejado originalmente.
«Não se pode tirar uma artista do line-up por um único motivo: ela é judia.», Aurore Bergé, ministra da Igualdade e do Combate às Discriminações
Isso já tinha acontecido com Barbara Butch antes?
Sim, e de forma ainda mais violenta. Em 18 de julho, um show de Barbara Butch em Grenoble foi interrompido cerca de vinte minutos depois de começar, quando cerca de cem ativistas ligados à La France Insoumise invadiram o local, jogaram garrafas de vidro em direção ao palco, xingaram a DJ e sabotaram o fornecimento elétrico, cortando o set na hora. O prefeito de Grenoble constatou os fatos e anunciou que apresentaria queixa. Cerca de 300 personalidades assinaram uma carta de apoio a Barbara Butch no Libération depois desse incidente. Em Amiens, é a segunda vez em dois meses que basta pressão, sem sequer um incidente no palco, para derrubar uma data de Barbara Butch antes mesmo que ela aconteça.
E agora?
Frédéric Fauvet garante que a cidade está trabalhando com Barbara Butch para encontrar uma nova data em Amiens, com garantias de segurança do Estado, embora nenhuma data tenha sido confirmada até o momento. Ninguém, nem os ministros, nem Xavier Bertrand, nem a AFPS, contesta os fatos concretos: uma casa cancelou uma artista já programada depois de uma campanha que transformou sua identidade judaica e sua posição política no motivo de sua exclusão. O que divide é saber se isso é um boicote legítimo ou uma capitulação discriminatória, e por enquanto, numa França que ainda digere as repercussões internas da guerra em Gaza, é as duas coisas ao mesmo tempo, e com força.



