O que exatamente Bob Sinclar disse?
Não era um novato reclamando. Bob Sinclar, de nome verdadeiro Christophe Le Friant, ajudou a construir o French Touch e é presença constante nas cabines de Ibiza há duas décadas. Então, quando contou ao streamer francês Joyca que vai pular a temporada, as pessoas escutaram.
"Já não me reconheço no que está acontecendo em Ibiza," disse. "Neste momento está tudo caríssimo." A queixa central dele é sobre para quem a noite é pensada hoje: "Vamos para o VIP, esquecemos os clubbers, e são os clubbers que criaram a moda de Ibiza." Na imprensa espanhola a frase pegou ainda mais forte: Ibiza, afirmou, "virou um show," onde tudo gira em torno do celular e do espetáculo. A preferência dele é direta: "Eu sou de verdade da cultura de clube, e gosto de tocar para quem quer dançar."
Por que o recuo de um veterano é um alerta
Porque ele nomeia o mecanismo, não só o clima, e esse mecanismo está drenando de Ibiza as pessoas que a fizeram. O raciocínio atravessa o dinheiro de ponta a ponta: quando os cachês das atrações sobem, os clubes precisam fechar as contas, então inclinam a sala para as mesas VIP e o serviço de garrafa, onde está a margem de verdade. A pista vira o cenário, iluminada por mil celulares que a filmam. Encareça a entrada, os drinques e as mesas o suficiente e você vai empurrando para fora justamente os ravers que construíram a reputação da ilha, os que vinham pela música, não pela vela cintilante na garrafa.
É essa a parte que deveria preocupar quem ama este lugar. Ibiza está perdendo em silêncio seus dançarinos. Quando um nome do mainstream com duas décadas de sets na ilha diz que está cansado, não é uma diva fazendo birra; é um sinalizador. Se até os artistas que lotam as grandes salas terminaram com o modelo, quem administra essas salas deveria encarar isso como um aviso de que a ilha está trocando a alma por um número trimestral.
O que de fato salvaria Ibiza?
A solução não é nostalgia, é rumo. Salvar Ibiza é montar mais noites em torno da música do que da mesa: entradas mais baratas, salas menores, line-ups escolhidos para a pista e não para o feed. A ilha não precisa de mais um espetáculo para 7.000 pessoas; precisa da sala onde o DJ consegue ler o público e o público veio dançar, a um preço que um raver comum realmente possa pagar. É a versão de Ibiza que os clubbers criaram, e a única que vale a pena salvar.
Nada disso significa que a ilha esteja acabada. Ibiza já se reinventou antes, e as salas que põem a pista em primeiro lugar não sumiram todas: o underground ainda respira nos terraços certos, longe dos grandes palcos e, cada vez mais, longe da ilha por completo. Mas a reinvenção não acontece por acaso. É preciso que promotores e casas decidam, de propósito, que quem dança importa mais do que quem gasta. Sinclar não anuncia a morte de Ibiza. Ele desafia a ilha a lembrar para quem ela existia.
Vamos para o VIP, esquecemos os clubbers, e são os clubbers que criaram a moda de Ibiza.



