O que torna o underground de Bruxelas tão interessante agora?

Bella Aquilina, da Resident Advisor, percorreu quatro espaços de Bruxelas para uma reportagem publicada a 14 de outubro: o Fuse, instituição techno com três décadas na rue Blaes; o Horst, o festival de arte e música que desde 2022 reconstrói um antigo armazém de equipamentos de telecomunicações abandonado no parque Asiat, reunindo cerca de 12.000 pessoas por dia em nove palcos; o Le Lac; e o Sundaze. O que os une não é um som específico, mas um método: pequenos coletivos que organizam festas em espaços invulgares ou temporários, construindo uma cena que não responde a nenhum algoritmo de booking.

É exatamente isso que transformou Bruxelas, durante anos ofuscada por Berlim e Amesterdão no mapa dos clubes europeus, numa cidade de que promotores e DJs falam agora com verdadeira urgência. O Fuse passou três décadas a tornar-se o tipo de clube que os turistas de festa assinalam no mapa como se fosse um museu, sem nunca perder a sua pista, chegando a proibir telemóveis na pista a partir de fevereiro de 2026 para proteger o anonimato que sempre o fez funcionar.

Por que é que tantos espaços estão a fechar ao mesmo tempo?

No último ano, Bruxelas perdeu, ou viu confirmada a perda de, várias salas que construíram esta reputação. O Spirito fechou após dezasseis anos. O bar Bonnefooi encerrou. O clube La Cabane, em Boitsfort, apagou as luzes. O espaço temporário RESET fechou. E o Le Lac, um dos quatro espaços da própria reportagem da RA, teve de fechar depois de a sua licença ter sido recusada: bastou a queixa de um único vizinho para lhe proibir qualquer evento acima dos 85 decibéis.

Nathan Pujadas, coordenador do coletivo Brussels By Night, não tem papas na língua.

"Custos disparados, uma convivência cada vez mais difícil com os residentes, pressão política e medidas punitivas, uma ausência total de visão estratégica, um público com menos poder de compra: os clubes estão a sufocar."

Nada disto acontece num vazio político apenas no sentido figurado: a Região de Bruxelas-Capital está sem governo há cerca de 550 dias, paralisando ao mesmo tempo as políticas de cultura, saúde pública, urbanismo e economia noturna.

A nova lei antirruído da cidade resolve mesmo o problema?

O Parlamento de Bruxelas respondeu. Em junho de 2026 aprovou o princípio do "agente da mudança": quem provoca o conflito é agora responsável por se adaptar a ele, o que significa que os novos residentes que se instalam perto de um clube já estabelecido têm de tomar as suas próprias medidas de insonorização, e não o contrário. Qualquer novo projeto residencial ou hoteleiro a menos de 20 metros de um espaço existente tem agora de avisar os compradores sobre o ruído. "O princípio é simples", declarou Pascal Smet (Vooruit), que apresentou a lei com Anne-Charlotte d'Ursel (MR). "Quem provoca a mudança assume a responsabilidade."

É um avanço real, apoiado por todo o espectro político, do PS aos Les Engagés passando pelo CD&V. Mas a lei exclui explicitamente os estabelecimentos temporários e os eventos ao ar livre como a Feira do Midi, exatamente o formato de que vivem o Le Lac, o RESET e grande parte da cena DIY que a RA acabou de celebrar. A cultura de clubbing de Bruxelas obteve o reconhecimento de património cultural imaterial regional em 2023; os espaços que fazem o trabalho mais interessante agora são precisamente os que essa proteção ainda não alcança.