Os DJs realmente acreditam que os seguidores contam mais do que o talento?

Sim, segundo a maior pesquisa recente feita com DJs em atividade. A Pete Tong DJ Academy, a escola on-line de DJing e produção fundada pelo apresentador da BBC Radio 1, ouviu 15 mil DJs e produtores que usam a sua plataforma: 61 % concordaram que «o número de seguidores conta mais do que o talento musical» na hora de conseguir shows. O CEO da academia, Alex Tripi, apresentou os resultados no International Music Summit (IMS), em Ibiza, em abril de 2025, uma confissão surpreendentemente franca vinda de gente cuja renda depende justamente desse ecossistema.

O número que deveria preocupar mais os bookers é o outro. 62 % dos entrevistados afirmam que a indústria eletrônica funciona como um «clube fechado», que recompensa redes já construídas e alcance de marketing em vez de talento ainda não comprovado. É a mesma queixa que os veteranos da cena repetem há anos sobre quem consegue shows e por quê, só que agora vem com uma amostra de 15 mil pessoas e um palco no IMS para dizer isso em voz alta.

«Cada post é um teste. Se não funciona, sinto que fracassei.» Um DJ-produtor francês de 24 anos ouvido pela academia

O que a corrida por seguidores está fazendo com os DJs, na prática?

Está esgotando-os. 52 % dos entrevistados dizem já ter sentido ansiedade ou esgotamento ligados à sua exposição pública, e 31 % pensaram em abandonar a música de vez no último ano. É cerca de uma em cada três pessoas ouvidas pela academia, justo num momento em que as ferramentas que medem um artista (streams, seguidores, taxa de engajamento) nunca estiveram tão visíveis para os agentes e bookers que decidem quem toca onde.

Nem todo mundo desiste. 35 % ainda acreditam que a persistência vai levá-los aonde querem chegar, independentemente do jogo dos números, uma leitura minoritária mas otimista dentro de dados que, no mais, soam como um alerta.

Isso muda de fato a forma como os line-ups são montados?

Devagar, e em geral para pior se você é um desconhecido com um set excelente e poucos seguidores. Agências e plataformas usam cada vez mais o número de seguidores e a taxa de engajamento como indicador de público, sobretudo para aberturas e palcos de festival vendidos pela garantia de audiência em vez do risco artístico. Sai mais barato escalar o que uma planilha promete vender do que apostar num set que ninguém ainda ouviu. O próprio negócio da Pete Tong DJ Academy, ensinar a mixar e a produzir, depende de convencer as pessoas do contrário.