O que vai o DJ Marfox tocar mesmo no Kalorama?
DJ Marfox, nascido Marlon Silva em Lisboa em junho de 1988, filho de pais naturais de São Tomé e Príncipe, fecha o palco Panorama Lisboa a 30 de agosto, último dia do MEO Kalorama no Parque da Bela Vista. Essa noite de encerramento divide-a com os colegas de editora da Príncipe Discos: DJ Lycox, Nídia, Helviofox, DIIONYG, O Ghettão e Soundpreta, praticamente uma tomada total do palco pela editora que ajudou a construir. Não é um encaixe de DJ espremido entre cabeças de cartaz de rock ou pop: o Panorama está, pela primeira vez, dedicado em exclusivo à música eletrónica ao longo dos três dias do festival, em paralelo com os concertos de Robbie Williams, Grace Jones, Ms. Lauryn Hill, Wyclef Jean e Deftones.
Porque importa que um som de bairro feche um palco de 100 mil pessoas?
Marfox não veio dos clubes que os agentes de booking costumam vigiar. Começou a mixar em 2002 e, em 2005, cofundou os DJs do Guetto com DJ Pausas e DJ Fofuxo, um coletivo de produtores autodidatas dos bairros da diáspora africana de Lisboa que misturavam kuduro angolano, kizomba, funaná e tarraxinha com rítmicas de house e techno. A compilação DJs do Ghetto Vol. I, de 2006, documenta esse som antes de alguém fora de Lisboa lhe ter dado um nome; a Príncipe Discos viria depois a reeditá-la como o disco fundador daquilo a que a editora chama hoje batida. O primeiro álbum a solo de Marfox, Eu Sei Quem Eu Sou, sai pela Príncipe em 2011, e a editora levou desde então esse som até à Warp Records (Cargaa 1, 2015) e ao ciclo Warm Up do MoMA PS1, em Nova Iorque. Um festival com uma afluência de seis dígitos a entregar um palco inteiro a esta herança, no mesmo fim de semana de Robbie Williams e Grace Jones, é o sinal mais claro de que o underground lisboeta deixou de ser uma nota de rodapé no circuito europeu de festivais.
Quem mais toca no palco que o Marfox fecha?
O Panorama são três noites, três identidades distintas. A de abertura junta Hunee e Roman Flügel ao live de Nathan Fake; a segunda inclina-se para o disco e a house com Horse Meat Disco e Hiroko Yamamura; a de encerramento é inteiramente da Príncipe, construída à volta de Marfox, Lycox e o resto do roster lisboeta da editora. Programar um som especificamente lisboeta, da diáspora africana, para fechar um palco que também recebeu Horse Meat Disco e Hunee é uma escolha curatorial deliberada, não um preenchimento de grelha: o Kalorama está a dizer ao seu público eletrónico que a batida tem o mesmo peso dos sons que costuma importar de Berlim, Londres ou Chicago.
"A Príncipe Discos é um dos projetos de música eletrónica mais inovadores e relevantes do mundo." - MEO Kalorama, sobre a sua própria noite de encerramento no palco Panorama Lisboa



