A maioria das atualizações de apps de bateria eletrônica cabe numa linha de changelog que ninguém lê. Esta é uma aula de história. A atualização 4.6 da Fingerlab para o DM10 não adiciona presets vagamente «vintage»: ela nomeia o hardware real que está sendo emulado, e a lista soa como a lista de desejos de um garimpeiro de equipamentos: a DSI/Roger Linn Tempest, a Korg 01/W, a Anushri da Mutable Instruments e a série modular Wiard 300.
Por que essas máquinas específicas importam?
Quem já programou uma Tempest conhece a textura do seu swing e do seu filtro, que nenhum plugin reproduz de verdade. Dave Smith e Roger Linn a criaram como a bateria eletrônica híbrida analógica/digital que a techno e a house pediam desde o lançamento em 2011. A Korg 01/W é uma workstation do início dos anos 90 que acabou sampleada em centenas de faixas house sem nunca ser creditada. A Anushri da Mutable, uma voz Eurorack francesa feita à mão, e a série Wiard 300, uma linha modular artesanal, são dois objetos cult: equipamentos que a maioria dos produtores leu sobre em fóruns mas nunca tocou, muito menos possuiu. A Fingerlab vende nostalgia a quem não pôde pagar pelos originais na época e não os encontra mais nem usados. A Amdek PCK-100, a Forat F9000 e a Keio Checkmate completam os oito kits, três baterias eletrônicas obscuras dos anos 80 raramente emuladas em outro lugar.
O novo processador ressonador entra na cadeia multiefeitos do DM10 ao lado dos 15 efeitos existentes (overdrive, delay e o resto), permitindo que um kit modelado em uma dessas máquinas passe por um filtro ressonante sem sair do app.
A Fingerlab vende nostalgia a quem não pôde pagar pelos originais na época.
O app continua sendo uma ferramenta de produção de verdade, não só um brinquedo?
Sim. O DM10 suporta Apple Silicon nativamente e funciona como plugin AUv3 no iPhone, iPad e Mac, o que permite encaixá-lo direto numa sessão de DAW em vez de ficar preso dentro da App Store. Esse suporte AUv3 é o que separa o DM10 da onda de apps-brinquedo de iOS que nunca saem da App Store: dá para sequenciar um kit aqui, passar pelo ressonador, e depois exportar os stems para o Ableton ou Logic sem nunca sair de um arquivo intermediário. A atualização é gratuita para quem já tem o app de 17,99 dólares, sem compras dentro do app nem assinatura.
O próprio DM10 é a continuação do DM1, o app de bateria eletrônica da Fingerlab que ganhou um Apple Design Award em 2012 e ajudou a provar que o iOS podia hospedar ferramentas sérias de produção musical, não só jogos. Treze anos depois, o estúdio ainda atualiza a mesma linhagem com kits modelados em equipamentos que seu público original sonhava em possuir.



