Em que assenta realmente o Gravitate?
O Gravitate apresenta-se como uma "experiência de dança e movimento", não como um festival de música ao uso tradicional, e o programa confirma isso na estrutura: além dos sets de DJ, há workshops com professores de movimento e terapeutas somáticos, entre eles Cátia Leitão, Cristiano Martins e o coletivo Movement Lisboa, com sessões de ioga e respiração guiada intercaladas entre os DJs, e não relegadas para uma tenda vazia. O cenário também ajuda: o lago Alqueva, perto de Alandroal, é a maior albufeira artificial da Europa, dentro de uma reserva certificada Dark Sky, um dos céus com menos poluição luminosa do continente. Como resumem os próprios organizadores, citados pela A Cabine: "Queremos criar um espaço seguro onde cada pessoa possa redescobrir a dança como um direito universal."
Quem toca mesmo, e a promessa "sem hierarquias" aguenta-se?
Aqui está a tensão que vale a pena olhar de perto. DJ Nobu e DVS1 estão entre os nomes mais respeitados da techno, dois DJ que construíram carreira precisamente sobre aquele ritual palco-plateia que o Gravitate diz querer ultrapassar. Estão escalados ao lado de DJ MARIA, Adriana Lopez, Catarina Silva e David Rodrigues, e uma vaga anterior de anúncios mencionou também Marco Shuttle, Cinthie, Batu, Martyn, tINI, Batida e Lechuga Zafiro. É um cartaz sério e credível segundo qualquer padrão de clubbing, não um extra de retiro de bem-estar. Divide-se por cinco palcos com nomes fiéis ao conceito: Silêncio, Salganhada, Jogo de Cintura, Desinquieta-te e Sem Rodeios, este último com curadoria de Vivian Põldoja e Vitor Hamamoto. E o horário continua a ser o de uma rave clássica: música das 16h às 10h todos os dias, com um palco aberto toda a noite. Tirando a embalagem conceptual, a estrutura continua a ser a de um festival de techno à beira de um lago, com um trabalho de programação sério.
"Queremos criar um espaço seguro onde cada pessoa possa redescobrir a dança como um direito universal."
O que acontece para além da pista?
A programação de terapia e movimento é precisamente o que distingue o Gravitate de um festival centrado apenas no cartaz: facilitadores com nome próprio, a fazer um trabalho somático real, não uma vaga "área de bem-estar". Os bilhetes começam nos 20 euros, com passes de campismo e autocaravana à parte para quem fica os cinco dias. Falta ver, depois do teste no terreno desta primeira edição, se esse lado do programa pesa mesmo ou se apenas dá uma história mais vendável a um cartaz já de si sólido.
Porque é que isto importa
Os festivais correm há dois anos atrás do mercado do bem-estar, muitas vezes colando uma tenda de banho sonoro a um cartaz inalterado. O Gravitate testa se esse discurso aguenta quando a própria música é tão credível: se o público de DJ Nobu e DVS1 aparecer e os workshops de terapia somática realmente encherem, é um sinal forte para a evolução do formato. Se não, confirma que o bem-estar continua a ser uma camada de marketing sobre o mesmo festival de sempre.
O que achamos
Uma declaração de "espaço seguro" escreve-se facilmente e não muda, por si só, o desenrolar de uma noite. O verdadeiro teste não é ter terapeutas no cartaz, é saber se a cenografia, o horário e o público se comportam mesmo de forma diferente por causa deles, e isso só se confirma no terreno. Escalar DJ Nobu e DVS1 continua a ser, em qualquer caso, um sinal sério de intenção: não é um festival a esconder um cartaz fraco atrás de um discurso de bem-estar.



