O que diz mesmo o relatório da câmara?

A 22 de julho de 2026, os arquitetos municipais de Ibiza entregaram ao Consell d'Eivissa um parecer técnico sobre a ampliação do Lío Ibiza no Hotel Corso, e o documento está longe de ser um mero carimbo. Estima a ocupação real do solo em 4.400 metros quadrados, face a um limite legal de 3.910 (15% da área base de 3.400 metros quadrados que o hotel pode ocupar). A falha resultante é classificada como « insubsanable », ou seja, impossível de corrigir com um simples ajuste documental.

A diferença surge porque as tabelas de superfície assentam num pátio construído em 1968 sem qualquer autorização documentada no processo. Ao incluir essa área não justificada no cálculo base, o excesso do projeto parece menor no papel. Ao excluí-la, os cálculos da advogada Florencia de Gaetano colocam o excesso real em 29,41%, praticamente o dobro dos 14,73% que constam do processo oficial.

Como é que um projeto rejeitado se tornou um projeto aprovado?

Não é a primeira vez que as contas deste projeto não fecham. A 7 de outubro de 2024, o responsável do urbanismo Juan Flores assinou um despacho que confirmava uma rejeição anterior da mesma ampliação, citando violações de altura, ocupação e capacidade construtiva segundo as regras urbanísticas normais.

O projeto não ficou por aí. A promotora Turismo Balear voltou a apresentá-lo por outra via: o « decreto covid », uma cláusula da era pandémica prevista na Lei 2/2020 para ajudar os hotéis a modernizarem-se, que isenta os projetos elegíveis exatamente das restrições urbanísticas que tinham acabado de bloquear o pedido. A câmara aprovou o relatório técnico a 4 de fevereiro de 2026 e emitiu a licença cinco dias depois. A mesma administração, liderada pelo presidente da câmara Rafael Triguero, bloqueou em paralelo novas licenças de discotecas no porto de Marina Ibiza, a poucos metros dali, alegando que a zona não suporta mais carga.

Por que os moradores esperaram 16 meses para saber?

Os registos municipais mostram que a câmara sabia dos planos de reforma pelo menos desde outubro de 2024. Os moradores só souberam numa reunião no final de fevereiro de 2026, quando o diretor artístico da Lío Ibiza apareceu para apresentar um projeto já dado como decidido.

« A câmara só toma conhecimento dos detalhes quando se tornam públicos ou notórios. »

Foi essa a resposta de Triguero quando os moradores o questionaram sobre as irregularidades na reunião, além de pedir « tempo » e insistir que o processo tinha sido « transparente desde o primeiro momento ». Recebeu sete perguntas distintas dos moradores sobre o processo e não respondeu diretamente a nenhuma delas.

O que acontece agora?

O processo está agora nas mãos do Consell d'Eivissa, que a 2 de julho de 2026 tinha pedido uma verificação à câmara e recebeu, três semanas depois, esta conclusão de « insanável » assinada pelos seus próprios arquitetos. A ação de Florencia de Gaetano pede a revogação total da licença. A Lío prevê abrir em 2027 este espaço com capacidade para cerca de 500 pessoas, anexo ao hotel de 300 quartos, que substituiria uma licença de 1996 limitada a 488 metros quadrados e que excluía expressamente o uso como discoteca.