O que realmente aconteceu na Anomalist?
Em junho de 2026, a polícia desmontou a Anomalist, uma rave clandestina montada em terreno rural entre Buscastell e Sant Mateu, nas colinas acima dos principais núcleos de Ibiza. Mais de 1.000 pessoas se amontoaram em três pistas de dança separadas, com som profissional, video mapping e até um carrossel móvel, com Seth Troxler, WhoMadeWho e Dennis Cruz no line-up, nomes que também tocam nos clubes licenciados da ilha. Não foi um caso isolado. Semanas antes, uma megafesta parecida numa villa perto de Sant Mateu anunciava 15 DJs no material de divulgação, com ambulâncias de prontidão e vans saindo de pontos de encontro na cidade. No dia 1º de julho, um encontro menor de cerca de 200 pessoas em Santa Gertrudis terminou com 15 autuações por posse de drogas e quatro testes de bafômetro positivos.
Por que a própria indústria das baladas está se voltando contra seus DJs?
A reação vem de dentro do setor. A Ocio de Ibiza, associação que reúne casas licenciadas como Ushuaïa, Hï Ibiza, UNVRS, DC10, Club Chinois e Lío, comprometeu seus clubes associados a recusar, a partir de agora, a contratação de qualquer DJ flagrado se apresentando num evento ilegal, medida que seu diretor, José Luis Benítez, chamou de ponto de virada na luta contra as raves clandestinas. O Consell d'Eivissa quer ir além: o conselheiro Mariano Juan exige cláusulas antipirataria em todos os contratos de artistas da ilha, dentro ou fora da associação, que resultariam na expulsão imediata de um DJ de um cachê e num veto permanente a contratações futuras.
Ibiza é uma ilha acolhedora, não para piratas.
Isso faz com que um DJ que toque numa villa clandestina arrisque toda uma temporada legal, não só uma multa.
Como funciona, na prática, a regra "sem flyers, sem geotag, sem seguidores"?
A lição mais clara vem do maior flagrante já registrado na ilha. Diplo foi multado em 300 mil €, a maior sanção já aplicada a uma rave ilegal em Ibiza, depois de promover para seus milhões de seguidores nas redes uma festa de 2024 no mirante de Cala d'Hort, que domina o ilhéu protegido de Es Vedrà. Foi justamente essa divulgação que ajudou a montar o caso contra ele. As festas que ainda funcionam hoje aprenderam a lição: sem flyer público, sem geotag no Instagram, sem arte de line-up, só boca a boca, uma van cujo ponto de encontro só é confirmado poucas horas antes da saída, e uma propriedade rural acessível apenas por uma estrada de terra que a mantém fora de qualquer mapa. Solomun já tocou num local recorrente, Es Puig de sa Creu, organizado pelos mesmos promotores desde 2017, sem nunca gerar a atenção que o Instagram de Diplo atraiu. A ilha agora destina mais de 2 milhões de euros por ano da sua taxa turística especificamente para financiar a polícia municipal na busca dessas festas. Cada euro empurra os sobreviventes um pouco mais para a sombra, que é exatamente o objetivo da regra.



