O Pavilhão Carlos Lopes já viu desporto, feiras e alguma festa eletrónica avulsa ao longo das décadas. A 17 de outubro recebe algo que Portugal nunca tinha tido: um festival construído do zero em torno da house, sem mais nada no cartaz.
Quem está a construir é a Jackies. A marca barcelonesa ocupa o Pavilhão Carlos Lopes das 20h às 4h com Chris Stussy, DESIREE e o residente Jackies Piem nas cabines, e chama-lhe o primeiro festival institucional dedicado à house no país.
Por que aposta uma marca barcelonesa em Lisboa?
A Jackies não chega de mãos vazias. Tudo comecou em 2017 com uma festa de rooftop para 200 pessoas em Barcelona, impulsionada pelo promotor Guillem Marimon e por uma equipa de apaixonados pela house que manteve o som coerente e o acesso restrito. Sete anos depois, a marca enchia a Fira de Barcelona (9.000 pessoas) e o Ifema em Madrid (6.000), além de residências de verão no La Terrrazza e no W Hotel de Barcelona e de uma noite recorrente no Música, em Manhattan.
É exatamente a infraestrutura que Espanha e Reino Unido levaram duas décadas a construir para a house: uma marca que cresceu, um público fiel, um calendário em torno do qual se organizam viagens. Portugal, apesar da fama noturna de Lisboa, nunca tinha tido um festival construído só em torno da house. A Jackies aposta que esse vazio é uma oportunidade, não um sinal de alarme, e que a cena clubber lisboeta, já habituada a techno e tech house, pode sustentar uma data dedicada à house, tal como aconteceu em Barcelona.
Lisboa tem a fama noturna. O que não tinha era um festival que tratasse a house como o evento principal, não como mais uma sala entre várias.
O que o cartaz diz sobre quem é exportado?
A programação já conta a sua própria história. Chris Stussy, o produtor neerlandês cujo tema «Desire» passa dos 40 milhões de streams e cuja editora Up The Stuss se tornou uma referência, representa o circuito europeu que a Jackies já sabe programar. Piem, nome verdadeiro Alvaro Palau, é um residente barcelonês da Jackies com duas décadas de carreira, lançamentos na Defected, Ministry of Sound e Crosstown Rebels, e palcos partilhados com Black Coffee, Honey Dijon e Seth Troxler. É o talento da casa da marca, chamado para ancorar a sua primeira data fora de Espanha.
DESIREE é o nome que aponta para algo maior. Criada em Ivory Park, um township perto de Joanesburgo, estudou política e economia na Wits University antes de construir um som que entrelaça deep house e tech house com ritmos de amapiano, gqom e kwaito ligados à sua infância. A sua presença no lançamento europeu de uma marca barcelonesa é mais um sinal de uma tendência que acelera este ano: DJs sul-africanos a passar de palcos regionais para os mesmos cartazes europeus onde antes abriam para os grandes nomes da house.
Por que isto importa
A Jackies Lisboa é um teste. Se a marca barcelonesa atrair um público real em Lisboa, os restantes promotores vão ler isso como prova de que a cena house portuguesa pode sustentar a infraestrutura de festival independente que a Espanha levou duas décadas a construir, e outros vão seguir. Se a aposta falhar, Lisboa continua a ser o que tem sido para quem gosta de house: uma escala entre Berlim e Ibiza, não um destino.
O que pensamos
Apostar num mercado incerto com um cartaz sólido e de baixo risco é a versão inteligente da expansão, e programar DESIREE ao lado do residente barcelonês Piem é exatamente como devia funcionar a cadeia de talento da cena: não como gancho de marketing para um lançamento, mas como norma.



