Porque é que uns desconhecidos numa pista acabam por parecer uma família?

Há um século, Émile Durkheim observou um grupo de pessoas a cair nos mesmos movimentos durante um rito religioso e deu um nome à carga que as percorria. Quando um grupo se junta e se move num mesmo ritmo, defendia, surge algo que nenhuma pessoa sozinha na sala produz, e o muro entre si e os outros torna-se poroso. Chamou-lhe efervescência coletiva, e via nela o motor do próprio ritual, a razão por que se sai de um encontro transformado e ligado aos desconhecidos que estavam ao lado. Escrevia sobre cerimónias e festas das colheitas. Bem podia estar de pé num armazém às 3 da manhã.

O underground construiu todo o seu ritual à volta dessa carga sem precisar da teoria: o warm-up lento que junta a sala, a longa subida, o peak em que a multidão deixa de ser uma soma de indivíduos, a descida em que gente que não se conhecia troca os números como velhos amigos.

O que acontece mesmo no corpo quando a sala se move como uma só?

É aqui que a poesia para. A antropóloga de Oxford Bronwyn Tarr e os seus colegas puseram essa sensação numa bancada de laboratório. Num estudo, puseram adolescentes brasileiros a dançar em grupos de três com música eletrónica a 130 BPM, pedindo-lhes que se movessem em sincronia ou dessincronizados, com um esforço físico alto ou baixo. Mover-se ao compasso e esforçar-se elevavam cada um o limiar de dor dos dançarinos, um indicador clássico das endorfinas, e cada um os fazia sentir-se mais próximos, com o efeito mais forte quando faziam as duas coisas. Uma experiência posterior de silent disco com 94 pessoas encontrou a mesma divisão: só os dançarinos sincronizados sentiram a proximidade e a subida do limiar de dor; os outros, nenhuma das duas.

O detalhe decisivo chegou quando a equipa bloqueou o sistema opioide do corpo com naltrexona e o efeito sobre o limiar de dor desvaneceu-se. É a impressão digital das endorfinas, a mesma química interna que te liga às pessoas que já amas, ligada por nada mais do que mover-se ao compasso com os outros.

Move-te ao ritmo numa sala cheia de desconhecidos e o corpo paga-te com a mesma química que usa para manter perto de ti quem amas.

Porque é que o underground consegue isto melhor do que um estádio?

O mecanismo tem condições, e uma boa noite de clube reúne quase todas pela própria forma que assume. Uma pulsação constante em four-to-the-floor mantida durante horas dá à sala o tempo de que precisa para se agarrar a um único ritmo. Uma pista escura, sem um palco para fixar, vira os dançarinos uns para os outros em vez de para um ecrã. A repetição e o volume fazem o resto, arrastando centenas de sistemas nervosos distintos para o mesmo beat.

Também explica, com precisão, o que mata a sensação. Um telemóvel erguido durante uma faixa inteira tira-te do ritmo da sala e devolve-te à tua cabeça. Um cordão VIP parte a multidão entre quem se move em conjunto e quem os observa de uma mesa. Um set de cabeça de cartaz reduzido a noventa minutos nunca dá à pista tempo suficiente para chegar ao momento que a une. Nada disto é uma simples queixa de esteta. É o mecanismo a desligar-se.