O que a ADE fez, exatamente?
Em 13 de setembro, a Amsterdam Dance Event publicou um comunicado retirando "toda afiliação oficial da ADE" dos promotores Komplott e Overgave, tirando a festa deles de 21 de outubro no clube Panama da programação do ADE Festival. A organização não cancelou a festa. Explicou que a postura pública dos organizadores "entra em conflito direto com os valores da ADE e se mostra profundamente insensível ao nosso papel e à nossa missão de apoiar a cena eletrônica, a vida noturna e suas comunidades". A ADE deixou claro o limite do seu poder: por ser um festival descentralizado, não controla as escolhas de programação de cada promotor, mas decide quem pode usar o seu nome, e a Komplott x Overgave deixou de ter esse direito.
"Embora a ADE seja um festival descentralizado em que as decisões de programação são responsabilidade de cada organizador, mantemos o controle sobre a nossa missão, e esperamos que os nossos parceiros afiliados se alinhem a esses padrões."
Os organizadores, e a casa Panama, mantêm a palavra final: a festa pode acontecer em 21 de outubro, mas sem o nome, o orçamento nem o alcance promocional da ADE por trás.
Por que a Komplott e a Overgave bancaram a escolha?
Tudo começou com a escalação do DJ francês Shlømo, nome verdadeiro Shaun Baron-Carvais, para a data de 21 de outubro. Shlømo é um dos DJs de hard techno citados desde fevereiro de 2026 por um ex agente de booking da agência Steer Management, que publicou prints e depoimentos de mulheres denunciando abuso sexual, um caso já conhecido na cena como os "Steer Files". Em junho, uma advogada que representa uma das denunciantes protocolou uma queixa criminal em Paris por estupro, abuso psicológico e ameaças de morte; a advogada francesa Inès Davau confirmou que há uma investigação criminal em andamento. Shlømo nega as acusações e diz ser alvo de uma campanha de "difamação e desinformação".
O DJ neerlandês Xamuel deixou o line up da Komplott x Overgave assim que a escalação de Shlømo foi anunciada, e a indignação se espalhou rápido pela cena neerlandesa. Em vez de retirá-lo, os organizadores publicaram um comunicado defendendo a escolha, o mesmo que a ADE citou como motivo para cortar a afiliação.
O que esse episódio diz sobre o ajuste de contas da hard techno?
Desde que os Steer Files vieram à tona em fevereiro, DJs como Basswell, Fantasm, CARV e Odymel perderam datas em festivais à medida que programadores tomavam distância, e a rede de apoio METOODJS (advogados, jornalistas, psicólogos) se formou para acompanhar as denunciantes. A maioria dessas acusações não resultou em processos publicamente confirmados. O caso de Shlømo é diferente: uma denúncia criminal formal e uma investigação em andamento em Paris, algo que vários programadores já haviam considerado motivo suficiente para cancelar as apresentações dele, antes de a Komplott e a Overgave decidirem o contrário.
A ADE é o maior encontro profissional da música eletrônica do mundo, cinco dias de conferências e centenas de festas afiliadas todo mês de outubro. Ao optar por romper publicamente com um promotor em vez de deixar a festa seguir sob o seu nome, ela estabelece um precedente sobre como fica a responsabilidade em nível institucional quando um conflito de programação em torno de um único DJ ganha essa dimensão.



