Há quem nesta cena toque para milhares de pessoas. E há quem garanta que quem toca possa continuar a fazê-lo durante vinte anos em vez de dois. Leticia van Riel era da segunda espécie, e a sua perda dói precisamente porque grande parte do seu trabalho acontecia onde as luzes não chegam.
Quem era Leticia van Riel?
Brasileira e francesa, mais de quinze anos de profissão e um percurso que parece um mapa de como este meio funciona de verdade. Estudou marketing de eventos em Londres e aprendeu o ofício dentro de agências como a MN2S, a IMD e a Safehouse antes de se lançar por conta própria. Mudou-se para Espanha em 2015 e fundou a LvR Management em 2018, em torno de uma ideia simples e pouco na moda: desenvolver artistas a longo prazo, protegê-los e construir carreiras em vez de correr atrás do momento seguinte. Dirigia também o programa LvR Mentoring, abrindo a porta à próxima geração de empresários, agentes e gente de editora que raramente tem um guia.
O que construiu para os seus artistas?
Foi co-empresária de Sama' Abdulhadi durante sete anos, no período que a tornou um dos nomes mais importantes da conversa global do techno. Acompanhou ANNA, a DJ e produtora brasileira, durante cerca de uma década, de talento emergente a cabeça de cartaz. Trabalhou também com Wehbba. Quem acompanhou estas carreiras sabe que nada disso acontece por acaso. Acontece porque alguém faz o trabalho invisível: os contratos, os limites, as conversas difíceis, a confiança mantida firme quando o próprio artista já não conseguia mantê-la.
A Leticia era uma das pessoas mais positivas e eficazes com quem tive o privilégio de trabalhar nesta indústria.
Como está a cena a reagir?
Com um luto verdadeiro. O International Music Summit descreveu-a como uma força do setor, e o cofundador Ben Turner deixou as palavras acima. Sama' Abdulhadi cancelou o concerto que tinha marcado no festival irlandês Beyond The Pale, escrevendo: «Na sequência do desgastante falecimento da minha co-empresária e querida amiga, Leticia, tive de tomar a decisão de cancelar a minha atuação de amanhã.» Homenagens chegaram também de ANNA, Victor Ruiz e VE/RA. Quando as pessoas mais próximas saem do palco para a chorar, percebe-se exatamente o que ela significava para elas.



