Quem já ficou atualizando a página de um festival às dez da manhã só para ver os ingressos sumirem em noventa segundos, engolidos por bots, tem interesse direto nesse voto. Em 16 de setembro de 2026, o comitê de Energia e Comércio da Câmara dos Representantes dos EUA votou 36-0 para avançar o MAIN Event Ticketing Act, que agora aguarda votação em plenário. Uma versão no Senado, S.196, também segue pendente de votação.
A lei, formalmente Mitigating Automated Internet Networks for Event Ticketing Act, foi apresentada em abril de 2025 pela deputada Diana Harshbarger (R-TN) e pelo deputado Troy Carter (D-LA). Ela não cria uma legislação do zero: reforça o Better Online Ticket Sales Act de 2016, conhecido como BOTS Act, a lei federal que já proíbe softwares bot de comprar ingressos além dos limites anunciados.
O que muda de verdade para quem compra ingressos?
Com o texto emendado, os vendedores de ingressos terão que manter controles de acesso e medidas de segurança reais que de fato façam cumprir o limite de compra anunciado, não apenas declará-lo. Aplicativos criados para automatizar compras de bots que driblam esses limites passam a ser explicitamente proibidos. Se um vendedor detectar uma burla, terá que reportar à FTC em até 30 dias e tomar medidas razoáveis para corrigi-la. As penalidades também ficam sérias: multa civil mínima de 10.000 dólares por dia por infração, com penalidade mínima adicional para violações intencionais.
Para quem já viu os ingressos de uma noite de clube ou de um festival sumirem num site de revenda minutos depois da abertura das vendas, é exatamente esse o mecanismo que a lei mira. O presidente do comitê, Brett Guthrie, apresentou o voto como uma garantia de que "todo americano possa aproveitar plena e seguramente os benefícios desta era de inovação", uma fórmula bastante genérica para descrever um problema de cena muito concreto e muito familiar.
Por que a Live Nation aplaude uma lei feita para combater bots?
Aqui está a parte que deveria levantar a sobrancelha de qualquer produtor. A Live Nation apoia publicamente o MAIN Event Ticketing Act, justamente enquanto a empresa e a Ticketmaster respondem a um processo movido pela FTC com base no BOTS Act vigente, que acusa a Ticketmaster de deixar revendedores driblarem seus próprios limites de compra e de lucrar com as revendas resultantes. Apoiar uma lei que endurece justamente a norma pela qual está sendo processada pode ser uma conversão reformista genuína ou um posicionamento esperto antes de uma audiência, e provavelmente é um pouco das duas coisas.
A Coalition for Ticket Fairness não se deixa convencer facilmente. A frase foi direta: o Congresso deve "acabar com a atividade ilegal de bots e a fraude, mas sem dar mais poder ao monopólio que já controla a maior parte do mercado". Essa é exatamente a tensão que vale a pena observar. Combater bots soa como uma vitória sem ambiguidade para quem tenta entrar numa festa em galpão ou num festival, mas se o aparato de fiscalização acabar reforçando a plataforma já dominante, as bilheterias independentes mais comuns no circuito de clubes podem sair ainda mais espremidas.
Acabar com a atividade ilegal de bots e a fraude, mas sem dar mais poder ao monopólio que já controla a maior parte do mercado.
E agora, o que vem pela frente?
A lei ainda precisa passar por uma votação em plenário na Câmara, sem data marcada, e o Senado ainda precisa avançar com o S.196 em seu calendário. Nada muda para quem compra um ingresso amanhã. Mas um voto de comitê unânime, 36-0, sobre um texto bipartidário, é um dos sinais mais fortes que Washington pode enviar de que essa lei está a caminho de se tornar realidade em alguma forma.



