A cena techno de Tbilisi tem um mito fundador construído em torno do Bassiani e do KHIDI, os clubes que colocaram a cidade no mapa de todos os bookers de festivais depois de 2014. O Mtkvarze chegou primeiro. Abriu em 2012 num antigo restaurante de peixe dos anos 50 às margens do rio Mtkvari, e agora fecha porque alguém vendeu o edifício sem lhe perguntar nada.
Como é que um clube perde o seu edifício sem saber?
Segundo o Georgia Today, o imóvel foi colocado à venda discretamente em agosto de 2026: 1,25 milhão de dólares por 570 metros quadrados de terreno e a estrutura, geridos através de uma empresa chamada Mtkvari LLC. Ninguém do clube parece ter feito parte dessa negociação. A Resident Advisor noticiou em outubro que o Mtkvarze só descobriu a venda efetiva depois de o negócio estar concluído, sem aviso prévio e ainda sem data fixa de fecho.
Esse intervalo entre a venda silenciosa de agosto e o anúncio de outubro é a verdadeira história aqui. Uma equipa que passou catorze anos a construir a reputação de um espaço, a programar as suas noites, a cultivar o seu público, não teve qualquer palavra a dizer na transação que acabou de pôr fim a tudo isso. O edifício data de 1960, desenhado pelo arquiteto Chachanidze como o restaurante Mtkvari original, com colunas monumentais e vitrais em arco que o tornam um exemplo reconhecido da arquitetura soviética de Tbilisi. O registo público georgiano regista sete proprietários ao longo da sua história. O Mtkvarze nunca foi mais do que um inquilino no ativo de outra pessoa.
«Isto não é o fim, a nossa jornada vai continuar por muito tempo. Acreditamos na nossa equipa, nos nossos anos de experiência, na vossa confiança e carinho, e no nosso legado partilhado.»
O clube publicou esta frase no Instagram em vez de anunciar um plano de relançamento, e nenhuma das duas fontes detalha o que vem a seguir. Fiquemos com ela pelo que é: uma equipa que se recusa a falar de fim, não a confirmação de um segundo ato.
Por que é que isto importa além de um clube na Geórgia?
O Mtkvarze organizou uma festa maratona de dez horas pelo seu 14º aniversário em 23 de outubro de 2026, o tipo de set interminável que definiu o espaço por mais de uma década, já nas suas últimas noites. É o clube que provou que Tbilisi conseguia sustentar uma cena techno séria antes de o Bassiani ou o KHIDI terem sequer aberto portas, e essa história é agora apagada por uma transação imobiliária que nada teve a ver com música, público ou cultura.



