O que é que a tolerância zero traz, na verdade, a uma pista de dança?

Cães detetores à entrada. Contentores de amnistia junto à porta. Um cartaz que proclama uma «política de tolerância zero» e uma revista à entrada. Parece segurança. É sobretudo uma proteção jurídica. Nada disto diz a quem está prestes a engolir um comprimido o que ele contém, e o mercado nunca foi tanto uma lotaria: as doses de MDMA dispararam, adulterantes baratos surgem no que é vendido como ketamina ou cocaína, e opioides sintéticos como os nitazenos começam a aparecer em pós que os europeus compram às cegas. Pior, a encenação tem os seus próprios mortos. Os médicos legistas que analisaram mortes em festivais, sobretudo em Nova Gales do Sul após uma série de tragédias, concluíram que um policiamento agressivo leva as pessoas a engolir toda a reserva de uma vez ao avistar um cão, transformando uma dose arriscada numa dose mortal. «Diz não às drogas» não apaga as drogas. Apaga apenas a informação.

Como funciona, em vez disso, o modelo neerlandês?

Os Países Baixos deixaram de fingir em 1992. Nesse ano, o seu ministério da Saúde criou o DIMS, o Sistema de Informação e Monitorização de Drogas, ainda hoje a mais antiga e vasta rede de análise do mundo. A premissa é tão banal quanto radical: tratar o consumo de drogas como um facto a gerir, não como um pecado a negar. Qualquer pessoa pode levar uma amostra a um dos cerca de trinta pontos de análise ligados aos serviços de dependências, entregá-la e voltar para levantar um resultado de laboratório e uma consulta presencial. Quando surge um lote perigoso, um comprimido sobredosado, uma substância vendida por outra, um adulterante, o sistema lança um alerta vermelho público. Não é vale-tudo. Os neerlandeses até proibiram as análises no local em festivais em 2002, com receio de que uma tenda num descampado parecesse um aval; o modelo é, por isso, um serviço de saúde pública sóbrio, não um extra de festa. Mas a base é a honestidade: saber o que circula, dizê-lo e deixar as pessoas decidirem de olhos abertos.

A informação muda mesmo os comportamentos?

É a objeção atrás da qual se esconde cada promotor: analisar «incentivaria» o consumo. Os dados dizem o contrário. Quando a The Loop, a primeira organização britânica autorizada a analisar drogas, testou substâncias em festivais ingleses em 2018, 61,7 % das pessoas entregaram para destruição o que tinham comprado assim que o resultado não correspondia ao que lhes fora vendido, e cerca de uma em cada cinco decidiu não consumir nada. Perto de metade optou por consumir menos. Fundada em 2013 pela criminologista Fiona Measham e pelo DJ de drum and bass Wilf Gregory, a The Loop mantém agora clínicas autorizadas em Camden e Hackney todos os meses até 2026. Onze países europeus declararam alguma forma de análise de drogas em 2025. E, no entanto, o Reino Unido passou 2023 a recuar: o Ministério do Interior exigiu de repente, para as análises em festivais, uma licença que nunca reclamara, expulsando serviços do recinto a meio da temporada. As provas apontavam numa direção; a política seguiu a oposta.

Não se pode avisar alguém sobre um comprimido que fingimos acreditar que nunca vai tomar.