O que é o Tec-Troit e por que ainda importa em 2026?

Cada Memorial Day weekend, o Movement enche o Hart Plaza com mais de 115 artistas, 30.000 pessoas e um bilhete que sobe de preço todos os anos. O Tec-Troit é a resposta. Fundado em 2011 por DJ Roach (Raul Rocha) no momento exato em que o Movement se tornou pago, o festival ocupa o mesmo fim de semana com uma proposta direta: techno para toda a gente, na cidade que a inventou, de graça.

Quinze anos depois, nada mudou. De 26 a 28 de junho de 2026, o Herman Kiefer Hospital na Taylor Street é o palco: um antigo complexo de saúde pública abandonado há mais de uma década, que ganha vida durante três dias com mais de 34 artistas, workshops, conferências sobre as raízes da techno de Detroit e um público que vai dos avós aos adolescentes. Essa mistura de gerações não é um argumento de venda. É o coração do projeto.

O que o lineup diz sobre a techno de Detroit hoje?

Mike Banks como headliner de um festival gratuito num hospital abandonado de Detroit não é ironia, é uma declaração. Banks cofundou o Underground Resistance com Mad Mike e Jeff Mills em 1989-90 e lançou a Submerge Distribution em 1992, construindo a infraestrutura sobre a qual a cena underground de Detroit ainda se apoia. O ideário do Underground Resistance foi explícito desde o início: anticomercial, enraizado na comunidade, politicamente consciente. Encontrá-lo em B2B com A Guy Called Gerald num palco gratuito é totalmente coerente com esse ADN.

Juan Atkins e Milan trazem mais uma presença da geração fundadora, enquanto Blake Baxter atua ao vivo, lembrando que esta música nasceu para ser tocada, não apenas reproduzida. DJ Godfather, Stacey Hotwaxx Hale, Frankie Bones em B2B com DJ Roach, DJ 3000, o coletivo Detroit Techno Militia 2x4: o lineup parece um diretório das pessoas que estavam na sala quando a techno de Detroit estava a ser construída, ou que cresceram dentro dessa tradição.

«Um fim de semana de techno ao sol, para todas as gerações. Do povo, para o povo.»

Esse é o lema do Tec-Troit. Depois de 15 edições e cerca de 10.000 pessoas na edição de 2023, já o conquistou com mérito.

Por que o Herman Kiefer Hospital é o lugar certo para isto?

A localização não é ao acaso. O Herman Kiefer, no 1151 de Taylor St., é um dos edifícios públicos abandonados mais emblemáticos de Detroit. Construído em 1931 como principal sanatório antituberculoso da cidade, fechou em 2013 quando Detroit declarou falência. Escolhê-lo como sede do festival é um ato deliberado de reapropriação urbana. A techno nasceu em parte dessa mesma paisagem pós-industrial, das ruínas de uma economia manufactureira que virou as costas à cidade. O Tec-Troit instala-se nessa história e devolve a música ao território que a gerou.

O formato para todas as idades e famílias prolonga essa lógica. Os workshops e conferências sobre a história da techno de Detroit funcionam em paralelo com a música, fazendo do festival ao mesmo tempo uma celebração e um ato de transmissão. Para uma cena que se preocupa com a sua memória coletiva, isso não é pouca coisa.