O Tresor não manda suas residentes para outra cidade à toa. A instituição berlinense que sustenta a linhagem techno pós-Muro há mais de três décadas coloca três de suas residentes atuais, Kerrie, Chloe Lula e Ireen Amnes, num único cartaz em Londres nesta quinta-feira, ao lado de V.40, fundadora do coletivo Soma People, como convidada. A noite se chama REVERSE. Acontece das 23h às 5h no Ormside Projects, no bairro de Peckham, ingressos de 10 a 25 libras via Resident Advisor.
O que merece atenção aqui não é o local nem o horário, é quem construiu esse cartaz e por quê. Segundo a newsletter Peckham.Live, o próprio texto de divulgação da festa a descreve como «techno com ponto de vista: visibilidade, pressão e zero enfeite», e chama o som de «noite pesada, hipnótica, com pegada industrial». A premissa é afirmada, não sugerida: esse cartaz é construído em torno de artistas mulheres, trans e não binárias da techno underground, e esse é justamente o propósito da noite, não um detalhe secundário.
Por que importa que sejam as próprias residentes do Tresor a dizer isso?
Questões de representatividade na cabine não são novidade na techno, há promotores construindo cartazes femininos ou inclusivos há anos no circuito de clubes. O que muda aqui é a fonte. Kerrie e Ireen Amnes têm status de residentes em uma das salas com mais peso histórico do gênero, o clube que ajudou a definir boa parte do som da techno berlinense pós-industrial depois de 1991. Quando residentes dessa instituição específica levam um cartaz de posicionamento para outra cidade, por iniciativa própria, isso se parece menos com uma festa temática e mais com a geração atual de DJs do Tresor decidindo o que a casa representa daqui para frente. Um promotor externo defender esse discurso é uma coisa. As pessoas que tocam com mais frequência na cabine real do Tresor defenderem é outra bem diferente.
«Techno com ponto de vista: visibilidade, pressão e zero enfeite.»
A presença de V.40 reforça ainda mais isso. O Soma People é um coletivo próprio, separado do Tresor, convidado para a ocasião em vez de incorporado à residência. É um cartaz construído por convite em torno de uma premissa compartilhada, não uma noite da casa preenchida com mais um convidado.
Um cartaz de posicionamento muda de fato o som da noite?
Ninguém finge que a política é todo o espetáculo, o próprio texto de divulgação aposta em «pesada, hipnótica, com pegada industrial» como promessa sonora, o que bate com o que Kerrie, Chloe Lula e Ireen Amnes entregam tanto em estúdio quanto nos cartazes habituais do Tresor. A REVERSE não é apresentada como uma mesa redonda com música de fundo. É apresentada como uma noite de techno que se recusa a ser neutra sobre quem ocupa a cabine, e deixa a música fazer o resto.



