Por que fecha um clube que ainda lotava a casa?

O White Hotel não está a morrer por falta de público. Até ao próprio anúncio de encerramento, o clube de Salford que programou Afrodeutsche, Blackhaine e Space Afrika, e que gere a sua própria editora experimental HEAD II, continuava a esgotar bilhetes. Segundo o The Manc, o espaço vai fechar definitivamente no final de 2026 por um problema que nenhuma programação resolve: o terreno na Dickinson Street fica numa zona de risco de inundação. O cofundador Ben Ward não poupa nas palavras: chama ao local «um pântano» e explica que a equipa preferia «sair pelos seus próprios termos, muito antes de se tornar um museu». O encerramento já tinha sido anunciado em maio de 2026, meses antes de o plano de reabertura ser revelado.

Quem fica mesmo com o comando?

O mesmo edifício reabre em janeiro de 2027 com um novo nome: BASTION. No comando não está nenhuma promotora externa: é a equipa do The Bag Factory, o clube vizinho com capacidade para 60 pessoas, já conhecido no underground de Salford por dar espaço aos coletivos mais independentes. O projeto é apoiado pela Strange Art Collective, uma CIC (empresa de interesse comunitário britânica) e não por um proprietário privado ou uma cadeia. No papel, é quase o mais próximo possível de «ficar em família» que uma mudança de dono pode ter. O Bag Factory anunciou a novidade no Instagram com uma ilustração a preto e branco do edifício do White Hotel e a frase «The underground has a new stronghold» (o underground tem uma nova fortaleza).

O que está a irritar tanta gente?

É precisamente esse anúncio que se está a virar contra eles. Segundo o Mancunion, utilizadores online andam a analisar ao pormenor o cartaz de lançamento do BASTION, convencidos de que foi gerado por IA, numa cena que passou uma década a construir a sua identidade sobre uma estética DIY feita à mão. O golpe é preciso: um clube conhecido pela sua programação radical, queer-inclusiva e aventureira vê a sua renascença anunciada com uma imagem que soa a fabricada por uma máquina. Por cima disso soma-se um receio mais profundo, levantado no mesmo artigo: que fundir o White Hotel numa nova marca acabe por apagar exatamente aquilo que o tornava particular, a sua identidade queer, o seu ruído, a sua vontade de arriscar.

Este receio tem fundamento?

Não de forma óbvia, ainda não. O estatuto de CIC da Strange Art Collective obriga-a legalmente a priorizar o benefício comunitário em vez dos acionistas, e o The Bag Factory passou a sua curta existência a dar espaço exatamente ao público underground que construiu a reputação do White Hotel. Nada disto garante que o BASTION mantenha o mesmo corte, e um cartaz com ar de gerado por IA, seja verdade ou não, é uma má primeira impressão para quem promete continuidade. Fechar um clube porque um rio o pode inundar é uma razão legítima e estrutural, nada mais. Que o sucessor ganhe a confiança de quem lotava a sala todas as semanas é outra questão completamente diferente, e o underground de Salford está de olho.

«Preferíamos sair pelos nossos próprios termos, muito antes de nos tornarmos um museu.», Ben Ward, cofundador do White Hotel