A Universal Music Group e a Warner Music Group fecharam no ano passado dois dos maiores acordos da era da IA musical, licenciando seus catálogos para a Suno e a Udio por uma cifra combinada que ultrapassaria com folga os 500 milhões de dólares. Os músicos de sessão que de fato tocaram guitarra, baixo, bateria e teclados nas gravações desses catálogos dizem não ter visto um dólar sequer, e o sindicato deles quer que um juiz federal obrigue as gravadoras a pagar.

O que exatamente a AFM alega?

A American Federation of Musicians, o sindicato que representa os músicos de sessão e estúdio da indústria fonográfica americana, processou a Universal e a Warner em 5 de junho de 2026. O caso se apoia no artigo 21(a) do Sound Recording Labor Agreement, o contrato sindical que regula o pagamento e a reutilização das gravações feitas por seus membros. A AFM argumenta que licenciar uma gravação para uma empresa de IA treinar um modelo com base nessa performance é exatamente o tipo de reutilização que o SRLA foi escrito para cobrir, e que as gravadoras devem aos músicos uma compensação adicional nunca paga.

A Universal e a Warner discordam. Em 11 de setembro de 2026, as duas majors apresentaram suas alegações finais pedindo ao tribunal que encerre o caso por completo, segundo a Music Business Worldwide. A AFM tinha apresentado sua oposição uma semana antes, em 4 de setembro, detalhando por que considera que os acordos violam a convenção sindical. O juiz Ramos agora analisa as petições de ambas as partes no tribunal federal do distrito sul de Nova York, sem decisão até o momento.

Por que os músicos não receberam nada?

O dinheiro em jogo não é pouco. O acordo da Warner com a Suno, fechado em novembro de 2025, é estimado em cerca de 500 milhões de dólares. A Universal assinou com a Udio no mês anterior, em outubro de 2025, sem revelar os termos. Os dois acordos permitem que as empresas de IA continuem treinando seus modelos e gerando música derivada dos catálogos das gravadoras, em troca de royalties e, em alguns casos, participação acionária.

Os músicos cuja atuação de fato construiu esses catálogos não participaram de nenhuma das duas negociações. Esse é o cerne da queixa da AFM: as gravadoras são donas das gravações master e podem licenciá-las, mas o contrato sindical deveria garantir aos músicos uma parte sempre que uma gravação ganha uma nova vida comercial. O treinamento de IA, segundo o sindicato, é exatamente esse tipo de nova vida, e deixar que as gravadoras escapem disso abriria um precedente capaz de se estender a cada músico de sessão cujo trabalho está guardado no cofre de uma major.

A disputa não é sobre se as gravadoras podem licenciar seu catálogo para empresas de IA. É sobre quem recebe o dinheiro depois que isso acontece.

Isso se encaixa numa tendência mais ampla?

Sim. Outros tribunais já tratam o treinamento não autorizado de IA sobre gravações musicais como uma violação de direitos autorais pura e simples, não como uma zona cinzenta. Em julho de 2026, um tribunal de Munique decidiu que a Suno havia violado direitos autorais ao treinar seus modelos com músicas protegidas pela sociedade alemã GEMA sem licença, ordenando à empresa que divulgasse sua receita, pagasse indenização e parasse de usar essas gravações para treinamento. Essa decisão não afeta diretamente o caso da AFM, mas mostra um apetite judicial real, dos dois lados do Atlântico, para obrigar as empresas de IA musical, e as gravadoras que lhes concedem licenças, a prestar contas sobre exatamente qual trabalho estão monetizando.

O que acontece agora?

Com as alegações finais de ambas as partes já apresentadas, o caso está nas mãos do juiz Ramos. Uma decisão poderia manter os acordos como estão, mandar as gravadoras de volta à mesa de negociação com a AFM, ou abrir caminho para que os músicos reivindiquem uma parte formal das receitas de licenciamento de IA daqui para frente, uma questão que vai muito além dos catálogos da Universal e da Warner e alcança qualquer gravadora que já tenha fechado ou venha a fechar um acordo semelhante.