A Tomorrowland normalmente não deixa o techno chegar perto do encerramento do seu Mainstage. Esse palco é território EDM, feito para quedas com pirotecnia e refrões de festival, o tipo de contratação que vai para um Martin Garrix ou o Swedish House Mafia. Em 19 de julho, coube a Charlotte de Witte, o nome mais constante do techno pesado, tocando linhas acid e desvios psy-trance para um público que veio buscar exatamente o oposto.
Ela nem deveria estar lá naquela noite. Segundo a DJ Mag, seu nome só surgiu no Tomorrowland Daily, o jornal distribuído todas as manhãs pelo recinto do festival, como o ato misterioso que fecharia o Fim de Semana 1. Sem cartaz, sem teaser: apenas um nome que fez metade do techno da internet dar um pulo, de Witte, no Mainstage, no encerramento.
Por que importa uma cabeça de cartaz techno encerrar esse palco?
Porque o Mainstage não é terreno neutro. É a contratação mais associada ao EDM do mundo, o palco que tornou a Tomorrowland sinônimo do gênero contra o qual agora abriga uma espécie de insurreição. De Witte tocar lá uma vez já seria notável. Fazer isso duas vezes, em dois momentos diferentes da própria carreira, é um padrão.
Na primeira vez, em 23 de julho de 2011, ela nem podia ser ela mesma. Aos 19 anos, recém vencedora de um concurso de DJs da Studio Brussel, ela abre esse Mainstage sob o alias Raving George, um nome masculino escolhido justamente porque uma DJ mulher programada num palco daquele tamanho era quase inédito, e ela não queria que a contratação fosse lida como um golpe publicitário. «Aquele set de 2011 literalmente mudou minha vida», ela contou, segundo a VRT, «depois vieram oportunidades como o Pukkelpop e o I Love Techno.» Ela manteve o alias em seus primeiros retornos ao Mainstage, abandonando-o publicamente apenas em 2015, quando decidiu que não precisava mais se esconder atrás dele.
Em 2022 o arco se inverteu por completo: ela encerrou aquele mesmo Mainstage como a primeira mulher a fazer isso abertamente como artista techno, sem alias, sem cobertura. Esse encerramento do Fim de Semana 1 neste ano, segundo o relato de sua própria reação trazido pela DJ Mag, atingiu-a como prova de quanta distância foi percorrida. «Toda essa jornada tem sido uma montanha-russa», disse ela, «acho que é exatamente isso que mais surpreenderia a versão mais jovem de mim.»
O que ela realmente tocou no maior palco do EDM?
Não foi um set de compromisso. Segundo o resumo do We Rave You, de Witte seguiu direto para o techno pesado e fechou com uma guinada psy-trance, com faixas ao lado de Vini Vici e Pan-Pot, e a estreia ao vivo de «The Resistance», sua nova colaboração com Theo Nasa, já tocada dias antes no Rock Werchter. Ela não suavizou o set para se encaixar na sala. Ela fez a sala se encaixar no set.
«Toda essa jornada tem sido uma montanha-russa. Acho que é exatamente isso que mais surpreenderia a versão mais jovem de mim.»
É uma contratação isolada ou uma virada real?
Uma única contratação não reescreve a identidade de um festival. O Mainstage da Tomorrowland ainda pertence ao EDM na maioria das noites, na maioria dos anos, e de Witte continua sendo uma das pouquíssimas artistas techno, ainda por cima belgas, a já ter conseguido esse encerramento. Mas um festival construído sobre grandes quedas que escolhe a cabeça de cartaz mais dura e menos disposta a ceder do gênero para fechar um fim de semana, duas vezes, em dois capítulos diferentes de sua carreira, não é acaso. É um festival admitindo de onde vem hoje parte da sua energia de público mais confiável.



