A música house tem muitos mitos de origem. O da ghetto house é real, e começa no Low End, a região do South Side de Chicago a leste de Cottage Grove onde DJ Deeon cresceu, entre os conjuntos habitacionais Robert Taylor Homes e Stateway Gardens. Ele já tocava em festas de casa em 1980, gravando seus sets em fita cassete e vendendo-as de mão em mão pelo bairro muito antes de pisar num estúdio.

Como um DJ do South Side acabou inventando um gênero?

Deeon Boyd conseguiu uma TR-606 e uma TB-303 da Roland, e transformou a TR-909 em sua máquina de assinatura, reduzindo a house de Chicago ao osso: batidas duras, uma linha de baixo, letras pensadas para a pista e não para o rádio. Quando sua estreia de 1994, o EP Funk City, saiu pela Dance Mania, selo que Ray Barney tocava em Chicago, ela se encaixava num som que já se formava ao seu redor, com DJ Funk e Jammin' Gerald. Deeon contaria depois que o nome não foi escolhido por nenhum deles: uma revista colou o rótulo "ghetto house" naquela música, e ele pegou. Ele mesmo descrevia a intenção sem rodeios: música "para paquerar um desconhecido, para as stripers, para a rua".

"Nós salvamos a house em Chicago.", DJ Deeon, sobre o papel da Dance Mania nos anos noventa

Nos cinco anos antes do fechamento da Dance Mania em 1999, Deeon lançou cerca de 30 singles pelo selo. "House-O-Matic", "2 B Free", "Bomb 96" e "Back 2 Skool" construíram seu catálogo; "Freak Like Me", de 1996, se tornaria a faixa que sobreviveria ao próprio selo.

Por que "Freak Like Me" ainda abre sets três décadas depois?

"Freak Like Me" é o disco de ghetto house que cruzou fronteiras sem perder sua aspereza. Circulou em rádios piratas e malas de DJ por duas décadas antes de o selo de Glasgow Numbers relançá-lo no EP Deeon Doez Deeon! em 2015, remasterizado a partir das fitas DAT originais de Deeon. Um ano depois, a Defected o juntou a Katy B e MNEK num pacote de remixes que transformou uma faixa de clube do South Side num single de festival de verão britânico. O Daft Punk já tinha feito sua parte pela reputação da faixa: o álbum Homework (1997) cita Deeon entre os produtores de Chicago que moldaram seu som, um reconhecimento que atraiu ouvidos europeus para o catálogo da Dance Mania muito antes de o streaming facilitar esse tipo de garimpo.

Como a ghetto house virou juke, e o juke virou footwork?

A ghetto house nunca ficou parada. Ao longo dos anos 2000, seu esqueleto de bateria eletrônica acelerou e ficou mais percussivo à medida que os crews de dança de Chicago pediam música para as battles, e isso virou juke. O ramo mais sincopado e ritmicamente extremo do juke, levado adiante por produtores como RP Boo e o coletivo Teklife, virou footwork, hoje samplado e estudado bem além da house e da techno. O catálogo de Deeon acompanhou essa virada: ele continuou lançando pela Teklife e pela Numbers ao lado da nova geração, em vez de ser arquivado como mera referência histórica. Um interesse internacional renovado por esse som o levou ao Reino Unido em 2016, graças a um voo financiado por crowdfunding, para tocar no XOYO de Londres e no último Bloc Weekender.

Aquele set do Boiler Room de 2014 gravado em Chicago, parte de uma sessão BR x Dance Mania, é o que há de mais próximo de ouvir o som original do selo tocado como foi concebido: alto, rápido, para uma sala que já sabia cada palavra.

O que a morte dele em 2023 muda para a cena?

Deeon passou suas últimas duas décadas em turnê enquanto lidava com sérios problemas de saúde, incluindo um diagnóstico de linfoma de Hodgkin e, mais tarde, diabetes e complicações que levaram a uma amputação, com fãs organizando mais de uma campanha de financiamento coletivo para ajudar a cobrir seus cuidados. Nada disso realmente freou sua produção: em maio de 2023 ele lançou quatro EPs em 24 horas. Morreu num hospital de Chicago em 18 de julho de 2023, aos 56 anos. DJ Slugo, seu parceiro de longa data no DJs On The Low, resumiu assim: "Mais de 30 anos e tantas memórias... nunca vai existir outro DJ Deeon". The Blessed Madonna foi direta sobre sua importância: "Seria difícil superestimar sua importância para Chicago e para toda a música de dança. Ele também era uma pessoa extremamente gentil".