Por que a droga ainda circula nos bastidores?
Pergunte a qualquer um que já passou um tempo num camarim depois das 3 da manhã: a resposta costuma ser sempre a mesma, quase sempre tem algo circulando. “Nos bastidores sempre tem algo rolando”, conta o DJ francês Axel à revista Tsugi, numa reportagem sobre o clichê mais antigo da profissão, “a maioria das pessoas ali por perto usa alguma coisa.” O acesso nunca foi realmente o problema na música eletrônica. Um produtor organiza a festa, a festa tem seu rider, o rider tem seu séquito, e esse séquito sempre carrega algo.
O que mudou é o que “a maioria das pessoas” faz de fato com esse acesso quando o set começa. Ricardo Villalobos continua sendo o alerta de referência da cena sobre o que acontece quando um entorno segue fornecendo enquanto o relógio deixa de importar: começos cronicamente atrasados, datas canceladas, sets que se estendem por horas que ninguém pediu. DJs mais jovens não o citam por fofoca, citam para lembrar a si mesmos que esse caminho termina com a agenda vazia, não com a lenda.
Por que cada vez mais DJs escolhem a sobriedade?
“Você cheira uma carreira de cocaína antes de ir trabalhar de manhã? Não. Com a gente é igual”, diz a DJ Molly, desmontando o mito numa frase só. Para um artista que toca em três ou quatro cidades por semana cruzando fusos horários, a conta não perdoa: uma ressaca não custa um domingo, custa o próximo voo, o próximo teste de som, o próximo público. O sono virou, discretamente, o verdadeiro potencializador de desempenho da profissão: os DJs hoje encaixam “disco naps” de 30 a 90 minutos nos dias de viagem, do jeito que um atleta programa sua recuperação, e artistas como Élise Massoni, KØZLØV e Greg Kozo falam abertamente sobre a própria sobriedade, não como discurso de vida, mas como condição do trabalho.
“Você cheira uma carreira de cocaína antes de ir trabalhar de manhã? Não. Com a gente é igual.” (Molly, DJ)
Até artistas que cresceram dentro da mitologia química da época contam ter superado isso. Étienne de Crécy não nega que o MDMA moldou seu primeiro contato com a música eletrônica, mas diz que não precisa mais dele para criar ou tocar. Agoria vai além: descreve a meditação como uma forma de alcançar o mesmo estado alterado que antes buscava em substâncias, no seu próprio ritmo e sem a ressaca que vem depois.
Os casos em que dá errado são públicos, e cada vez mais são os próprios DJs que os contam. Sam Divine, pilar da Defected Records que já tocou no Tomorrowland e no Glastonbury, contou que bebia desde os 14 anos e ficou “viciada a partir daquele momento”: hospitalizada durante uma crise em 2020, entrou em reabilitação em janeiro de 2025 após duas décadas alternando álcool, cetamina e soníferos. Jumpin' Jack Frost, fundador do selo de drum and bass V Recordings, descreve uma queda mais lenta, cocaína em 2002, crack em 2019: “começa parecendo divertido, e de repente vira algo bem sombrio.” Uma primeira tentativa de reabilitação em 2019 não segurou; a segunda, em 2022, funcionou. Desde então ele assinou com a Def Jam. Nenhuma das duas histórias defende a abstinência como virtude. Ambas falam de duas pessoas que quase perderam a carreira que as substâncias supostamente ajudavam a sustentar.
A redução de danos está substituindo a tolerância zero?
A outra mudança da indústria é mais silenciosa: cada vez menos gente finge que a droga simplesmente não está ali. Organizações como a americana DanceSafe, que testa pílulas em raves desde 1998, e a britânica The Loop, fundada pela criminóloga Fiona Measham e presente em festivais desde 2013, tratam o consumo como um dado da realidade e concentram energia no perigo de verdade, lotes contaminados e dosagens desconhecidas, em vez de tentar convencer alguém a se abster. Os testes da The Loop, primeiro com reagentes colorimétricos e cada vez mais com espectrometria FTIR para uma leitura mais completa, já levaram diversas vezes pessoas a descartar ou reduzir voluntariamente a dose do que carregavam, assim que viram o que realmente havia ali dentro.
Nada disso transforma a cabine do DJ numa sala esterilizada. Transforma os bastidores de 2026 num lugar onde sobriedade e testes de redução de danos convivem com a mesma bandeja de substâncias que sempre esteve ali, menos como contradição e mais como o sinal de uma indústria que finalmente está sendo honesta sobre o que sempre esteve em cima da mesa.



