O que Komarov realmente escreveu?

A mensagem que encerrou a data de Komarov no Amsterdam Dance Event reapareceu esta semana num fórum de trance no Reddit: a captura de tela de uma mensagem enviada ao DJ ucraniano Vadim Bonkrashkov, traduzida do russo, chamando-o de "nazista imundo" e dizendo esperar que ele e "todo o seu país de merda" "morressem em agonia". Komarov não negou nada. Questionado pelo jornal neerlandês AD, confirmou ter enviado a mensagem e depois deixou claro o que realmente o incomodava: perder a viagem. "Eu estava planejando ir a este evento e encontrar artistas com quem trabalho", disse ele, apresentando uma viagem cancelada, não uma ameaça de morte contra um colega, como a verdadeira perda.

A Interplay Records, que havia contratado Komarov para um set na sexta-feira, 23 de outubro, no ADE, retirou-o do cartaz no mesmo dia em que a captura começou a circular. A gravadora não deu nenhuma explicação pública além de confirmar a sua saída.

Por que um DJ cai em um dia, e outros não?

Aí está o ponto central. Komarov não é um nome de peso; retirá-lo não custava nada a ninguém. Compare isso com os nomes que a cena deixa em paz há anos, apesar de ligações documentadas com a máquina de guerra russa. Karel Burger Dirven, cônsul honorário dos Países Baixos para a cena ucraniana, disse ao AD que a exclusão de Komarov "deveria ser apenas o começo", acrescentando: "Não estou dizendo que nenhum artista russo deveria poder vir, mas quem tiver provado ter tocado na Crimeia ou em eventos ligados ao Kremlin não tem lugar aqui."

Ele apontou diretamente para Roman Messer. O produtor de trance já tocou várias vezes na Crimeia desde a anexação russa de 2014, e se apresentou num evento estudantil organizado pelo Ministério da Educação russo, segundo o AD. Messer, por sua vez, realmente enche casas; nada mudou na sua agenda.

Como seria uma coerência real?

O próprio ADE evita a questão por construção. Dos cerca de 3.300 artistas distribuídos em mais de 200 locais esta semana, o festival disse ao AD que "não tem visibilidade sobre as contratações", já que cada gravadora ou coletivo organiza o seu próprio showcase, incluindo o da Interplay na sexta-feira. "As line-ups podem mudar até o último momento, mas, de qualquer forma, Komarov não está mais na lista", disse um porta-voz, uma frase que fala de um único DJ, não de uma regra.

Este nem é o primeiro tropeço desta edição. O DJ neerlandês Xamuel se retirou do evento no mês passado depois que foi anunciada a presença do DJ francês Shlomo, acusado de estupro, em outro cartaz. Duas polêmicas distintas, dois padrões distintos, e em ambos os casos a reação veio de indivíduos ou do público indignado, não de uma regra que o ADE tenha fixado para todos.

"Quem tiver provado ter tocado na Crimeia ou em eventos ligados ao Kremlin não tem lugar aqui." - Karel Burger Dirven, cônsul honorário ucraniano para a cena neerlandesa