O que é o SO·HER, e por que importa que Ellen Allien esteja no mesmo cartaz?
O Cargö, em Caen, lançou o SO·HER em 2025: um programa de acompanhamento de um ano para artistas mulheres, trans e não binárias da cena eletrônica normanda. Não é um palco secundário escondido num canto do festival. As participantes passam por formação em técnicas de DJ e produção, residências em estúdio, media training e mentoria de DJs em atividade, antes de conseguir um cachê ao se formarem. A primeira turma, seis artistas entre elas DJ Claude, LOMA, Maivoor, Nemerha, Aineudeuzaile e Voyoute, encerrou o ano com um show pago no Cargö em 26 de julho de 2026. Uma segunda turma começou em junho.
Para a sexta edição do NDK Festival, de 7 a 11 de outubro em Caen, três formadas pelo SO·HER, NE2L, Maivoor e Cholitx, não ficam numa categoria separada de "artistas emergentes". Elas dividem a programação com Ellen Allien, a veterana berlinense que fundou a BPitch Control em 1999 e que há mais de vinte anos denuncia o desequilíbrio de gênero nos lineups de techno, na NDK Night 1 de 9 de outubro e no resto da semana. É aí que está a história de verdade: um programa de formação só prova seu valor quando suas formadas compartilham cartaz com quem já está dentro da indústria, não quando produz uma estatística bonita para um release.
Quem mais toca, e como é o resto do cartaz?
A NDK Night 1 (9 de outubro) junta techno, bass music e club desconstruído com Ellen Allien, Nextdimensional, Caiva, Digé M0M0 e Cholitx nos palcos do Cargö. A NDK Night 2 (10 de outubro) pesa mais a mão, com Akira, Andy Garvey, Gabber Eleganza e Nurse Erica. Em torno dessas duas noites estão a NDKids (7 de outubro, uma rave familiar gratuita na praça do Cargö), a NDK Campus (7 de outubro, um show gratuito para estudantes na universidade), a NDK Free Night (8 de outubro, uma noite gratuita com NE2L e DJ Travella, entre outros) e o NDK Brunch de encerramento (11 de outubro) com Maivoor. Os organizadores falam em 18 mulheres entre os 36 artistas programados ao longo da semana, uma paridade quase total que não acontece por acaso num cartaz desse tamanho.
Por que um programa de formação regional importa além de Caen?
"O objetivo continua o mesmo: acompanhar e fazer crescer projetos artísticos da cena eletrônica normanda.", Le Cargö
O debate sobre quem sobe aos palcos techno costuma parar em números e promessas, raramente vai além disso. A resposta normanda é estrutural: pagar pela formação e depois colocar as formadas no mesmo palco e no mesmo cachê que a atração principal, em vez de num palco satélite. Saber se NE2L, Maivoor e Cholitx vão ser contratadas fora do festival que as formou no ano que vem é o verdadeiro teste, não o cartaz desta semana.



