Quem é mesmo assinalado?
O Spotify passou o ano a fazer limpeza. Nos doze meses até setembro de 2025 retirou mais de 75 milhões de faixas que considerou spam e, ao mesmo tempo, ligou um «filtro antispam» que assinala as contas que fazem batota e deixa discretamente de as recomendar. No papel, persegue comportamentos: envios em massa, duplicados sob diferentes nomes de artista, faixas artificialmente curtas, manipulação de metadados e de posicionamento. O problema é que a rede de arrasto não sabe quem é humano. Um produtor que recorre a um distribuidor permissivo, ou que publica uma rajada de edits e versões, pode acionar os mesmos alarmes de uma quinta de bots, e o castigo é igual: sem playlists, sem impulso do algoritmo, um catálogo que deixa de ser encontrado. O Spotify insiste que está a «implementar o sistema com prudência» para não penalizar quem não deve, mas os mais expostos são os pequenos artistas reais, os que têm menos margem para reclamar.
Porque é que as bandas de IA escapam?
Porque o único sinal que de facto as apanharia, ou seja, que isto foi feito por uma máquina, é precisamente aquele que o Spotify se recusa a impor. A sua declaração de IA é opcional: uma beta aberta a 16 de abril de 2026 permite aos artistas declarar a IA na voz, nas letras ou na produção através do distribuidor, e o próprio Spotify reconhece que «a ausência de um crédito não significa que não tenha sido usada IA». Assim, um catálogo de IA anónimo que vai largando faixas polidas, de duração normal, sem comprar reproduções falsas, passa incólume por um filtro pensado para apanhar a fraude grosseira. A demonstração já aconteceu. Os The Velvet Sundown, uma banda gerada de ponta a ponta com o Suno, fotografias promocionais de IA e biografia incluídas, subiram a cerca de 1,4 milhões de ouvintes mensais no verão de 2025. Foram jornalistas, e não a moderação do Spotify, que os desmascararam.
A plataforma castiga os honestos e deixa fugir os anónimos.
Qual é a dimensão do problema que o Spotify não quer medir?
Não falamos de algo marginal. A Deezer, que publica o número, estima que cerca de 28 % das faixas carregadas todos os dias na sua plataforma, mais de 50.000, sejam já totalmente geradas por IA. O Spotify nunca comunicou o dado equivalente da sua própria plataforma e refugia-se na fórmula de que a IA representa «uma percentagem realmente, realmente pequena das reproduções». Talvez. Mas as reproduções não são o único valor em jogo: cada envio de IA é mais uma fatia retirada do mesmo bolo de direitos, mais um resultado colocado entre um ouvinte e um artista humano, mais uma faixa que o filtro tem de analisar. Recusar contá-lo já é uma escolha.
O que pode fazer um artista independente?
Protege-te do filtro antes que ele te «proteja». Mantém os teus lançamentos num distribuidor sério, não numa fábrica de envios que o Spotify já vigia; espaça as publicações em vez de despejar vinte faixas de uma vez; preenche metadados e créditos reais; e se usas IA em algum ponto da cadeia, declara-o, porque hoje um crédito em falta parece algo que se esconde. Nada disto devia recair sobre o artista. Mas enquanto o Spotify não tiver a coragem de nomear a IA com a mesma firmeza com que nomeia o spam, o terreno mais seguro continua a ser o lado certo de uma máquina incapaz de notar a diferença.



