O que a Stone Techno realmente construiu?
O Stone Techno Festival voltou de 10 a 12 de julho ao sítio Patrimônio Mundial da UNESCO Zeche Zollverein, em Essen, na Alemanha, com curadoria, como sempre, do selo alemão The Third Room. A marca registrada do festival sempre foi o cenário: mais de 100 artistas em quatro palcos montados dentro de uma antiga mina de carvão, entre passarelas de aço e torres de coqueificação. Este ano, ganhou um quinto.
O Listening Floor fica dentro da Kokerei, a antiga fábrica de coque do complexo, e é construído como um anfiteatro circular em vez de uma pista: fileiras de assentos ao redor de um ponto central, som pensado para ser ouvido e não sentido debaixo dos pés, e seu próprio bar de vinhos no lugar de uma barraca de cerveja. Dezesseis artistas tocaram ali com exclusividade, um line-up que lembra mais a programação de um selo de escuta do que um cartaz techno: a compositora berlinense Grand River, Kangding Ray, upsammy, Barker, Legowelt, Vladimir Ivkovic, Colin Benders, Nadia Struiwigh, Andrey Pushkarev, Ahmet Sisman, Emily Jeanne, Carrier, Tauceti, Tikiman & Richard Akingbehin e Out of Place Artefacts, o projeto conjunto de .VRIL e Rødhåd. Nenhum deles está ali para explodir uma pista às 3 da manhã.
Por que construir uma sala onde nada explode?
Felix Fleer, curador do festival pela The Third Room, é direto sobre o que o Listening Floor não é. «É simplesmente música vivida de outra forma», diz ele, insistindo que o palco não será «um acessório nem uma simples área chill ambient». Sua referência é o MUTEK, em Montreal, não um lounge de festival: uma programação construída em torno da música eletrônica que nunca precisa se justificar diante de um bumbo.
«É basicamente tirar algumas das amarras funcionais que costumamos associar à música eletrônica de dança», explica Fleer. «Acho que ter um espaço dedicado só à 'música eletrônica', sem outro rótulo, é um esforço que vale a pena.»
Sua leitura do momento é específica. Ele acha que a cena passou os primeiros anos pós-pandemia atrás da «intensidade imediata», sets de horário nobre feitos para impacto máximo depois de anos de silêncio forçado, e que esse apetite já está «em grande parte saciado». O que ele sente agora, diz, é «uma abertura crescente, uma fome real por nuance e profundidade na música eletrônica».
Evolução ou busca por conforto?
Essa leitura tem dois lados. Todo o contrato social do techno passa pelo corpo: a pulsação, o bumbo em quatro tempos, a pista como o lugar onde a música realmente acontece. Um anfiteatro com assentos e carta de vinhos, dentro de um festival construído, no mais, em torno de sets de 135 a 150 BPM em horário nobre, rompe de fato esse contrato, não é uma variação dele. Lida com generosidade, é a cultura techno finalmente abrindo espaço para as margens ambient e experimentais que sempre fizeram parte do seu DNA (o dub techno da Basic Channel, a ala mais cerebral de Detroit), mas que raramente ganhavam um palco grande num festival deste porte. Lida com desconfiança, parece mais festivais percebendo que seu público está envelhecendo, que um bar de vinhos vende diferente de uma bebida energética, e que «escuta profunda» é uma roupagem confortável para um público que prefere sentar.
As duas leituras podem ser verdadeiras ao mesmo tempo, e a curadoria da Stone Techno torna difícil descartar a mais generosa: isso não é uma tenda chill com um DJ enfileirando edits downtempo, são Kangding Ray e Barker, artistas cujo catálogo já vive fora da pista. Se outros festivais vão copiar o formato, ou diluí-lo num slogan de marketing, é o verdadeiro teste.



