O que havia realmente no rig de Alive 1997 dos Daft Punk?

O equipamento por trás do concerto que lançou os Daft Punk parece um museu de máquinas que quase ninguém queria na altura. A espinha dorsal era Roland: um baixo TB-303, as caixas de ritmos TR-707, TR-808 e TR-909, um MC-202, um Juno-106 e o rack MKS-80. Por cima, um Sequential Prophet-VS pelos seus pads vetoriais cristalinos, um punhado de samplers (E-mu SP-1200, Ensoniq ASR-10, Akai S01, Roland S-760) e um rack de efeitos baratos da Lexicon, Alesis e Behringer, tudo passado por mesas Mackie. Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Christo não corriam atrás de equipamento de luxo. Corriam atrás das máquinas mais baratas que davam o som certo.

«Fizemos o disco em casa, muito barato, muito depressa e de forma espontânea.» Thomas Bangalter sobre Homework.

Então, quão barato era em 1996?

Barato o suficiente para que o título do álbum fosse meia piada sobre o orçamento. As máquinas que hoje definem o house e o techno eram, em meados dos anos 1990, fracassos comerciais que a indústria já tinha enterrado. A TB-303 sai em 1981 a 395 dólares, vende mal como o falhado substituto de baixo que a publicidade prometia, e desaparece do catálogo logo em 1984. A TR-909 está na tabela a 1195 dólares em 1983 e tem o mesmo destino, liquidada em menos de dois anos. Quando dois miúdos de Paris vão às compras, isto tudo anda em segunda mão, o equipamento analógico que o boom do digital tornara profundamente fora de moda. Bangalter aponta sem pudor para a Alesis 3630, um compressor de 300 dólares e «um dos mais baratos do mercado», como o compressor principal tanto de Homework como de Discovery.

E quanto custaria esse rig hoje?

O contrário de barato. O Guide To Gear da Reverb, construído sobre as vendas reais da plataforma, concluiu que algum equipamento de áudio em segunda mão valorizou cerca de 500 por cento em sete anos, à frente do S&P 500 no mesmo período, com as velhas caixas de ritmos Roland entre as maiores subidas. Na prática, uma TB-303 ou uma TR-909 original em bom estado muda de mãos hoje por vários milhares de dólares cada; um bom Juno-106, outrora um cavalo de batalha por menos de 1000 dólares, ultrapassa hoje largamente esse valor. Junte o Prophet-VS, o MKS-80, os samplers e o resto, e o arsenal de saldo que alimentou Alive 1997, reconstruído hoje, dispara bem para lá das cinco cifras. As máquinas não mudaram. Mudou a história que contamos sobre elas.

Ainda dá para ter o som sem hipotecar a casa?

Dá, e é a parte que vale a pena reter. As reedições Boutique da Roland põem uma TB-03 e uma TR-09 na prateleira por algumas centenas de dólares, e as emulações em software aproximam-se mais a cada ano. A lição de Alive 1997 nunca foi o preço. Foi que duas pessoas, com máquinas baratas e desprezadas e uma ideia inabalável, montaram um dos concertos mais influentes da música eletrónica. As máquinas sempre foram apenas máquinas.