Por que o fabric dispensa um clube tradicional por uma ponte no Brooklyn?

O fabric não está abrindo uma unidade em Nova York nem reservando uma residência em uma sala existente. O clube está montando uma produção audiovisual única no Under the K Bridge Park, aquele espaço industrial à beira d'água encaixado sob a ponte Kosciuszko, na fronteira entre Brooklyn e Queens, das 14h às 2h do dia 5 de setembro. Essa escolha diz algo. A identidade do fabric foi construída dentro de uma sala específica, com sistema de som e público próprios, num antigo depósito frigorífico vitoriano na Charterhouse Street. Em vez de tentar recriar isso num porão alugado em Manhattan, a marca aposta no que um espaço industrial ao ar livre oferece e um clube convencional não: escala, uma programação que se estende da tarde à madrugada, e uma produção visual assinada pela dreamrec pensada para aquele local específico, não encaixada numa sala emprestada.

Também é uma forma de baixo risco de testar o mercado americano. Um evento de um dia sob a bandeira da produtora nova-iorquina ReSolute não carrega a exposição regulatória que abrir um espaço permanente implicaria, algo que o fabric conhece bem demais.

Por que o fabric ainda precisaria provar algo?

Porque durante 27 anos nunca precisou. O fabric abriu em outubro de 1999 num antigo depósito frigorífico perto do mercado de Smithfield e se tornou um dos clubes que definiram a era pós-warehouse da cena dance britânica, eleito por duas vezes o melhor clube do mundo no Top 100 da DJ Mag. Em setembro de 2016, o conselho de Islington revogou sua licença de vez após duas mortes ligadas a drogas, apontando uma «cultura de uso de drogas» que a equipe não conseguia mais controlar, fechando brevemente para sempre a sala mais influente de Londres. Foi preciso uma campanha #SaveFabric que arrecadou mais de 200 mil libras e um acordo negociado com o conselho e a polícia metropolitana para reabrir as portas em janeiro de 2017, sob um regime reforçado de identificação e vigilância. Um clube que lutou tanto para manter seu próprio endereço não atravessa um oceano por uma data qualquer.

Quem toca de verdade, e o que esse line-up diz sobre o techno americano?

Jeff Mills lidera o line-up. Cofundador do Underground Resistance em Detroit, há três décadas ele é um dos DJs mais rigorosos e intransigentes do techno, o oposto exato do headliner de EDM de festival que costuma acompanhar uma «estreia» americana. Ao seu lado: Ben UFO e Craig Richards, dois dos selecionadores mais respeitados da cultura clube britânica, conhecidos por sets inclassificáveis e garimpados em vez de fórmula de gênero, e Helena Hauff, a DJ e produtora de Hamburgo que se tornou um dos nomes europeus mais requisitados justamente por aquele techno cru e sem polimento que o fabric sempre defendeu. Um line-up pensado para quem já conhece esses nomes, não uma escalação construída para viralizar.

Ninguém faz Jeff Mills e Craig Richards atravessarem o Atlântico atrás de um momento viral. Esse line-up fala com quem já sabe por que o fabric importa.

O que essa escolha diz sobre a cena underground americana?

Ao escolher o Brooklyn, e especificamente um espaço industrial ao ar livre em vez de um clube em Manhattan, o fabric aposta que o público americano quer a mesma coisa que o público britânico do clube sempre quis: um sistema de som sério, um line-up construído sobre reputação e não sobre algoritmo, e uma sala, ou nesse caso uma ponte, que não precisa de mesas VIP para vender ingressos. Se der certo, é de se esperar que o fabric volte aos Estados Unidos, e que outras instituições europeias observem de perto como esse evento único se desenrola antes de decidir se seguem o mesmo caminho.