Como um DJ de rádio de Detroit virou «the Wizard»?
Jeff Mills nasceu em Detroit em 18 de junho de 1963 e cresceu ouvindo os mixes noturnos de Charles «the Electrifying Mojo» Johnson no rádio. No início dos anos 1980 já tinha seu próprio horário na WJLB, mixando com o nome «the Wizard», conhecido por revezar dois toca-discos mais rápido do que a maioria dos DJs levava para encaixar um único disco. Dividia a antena com os outros pioneiros da cidade, entre eles Derrick May, Kevin Saunderson e Juan Atkins, numa época em que a cena eletrônica de Detroit ainda inventava suas próprias regras no rádio, e não nas boates.
O que tornava o Underground Resistance diferente de qualquer outro coletivo techno?
Em novembro de 1989, Mills e «Mad» Mike Banks fundaram o Underground Resistance, mais tarde com a entrada de Robert Hood. O UR se apresentava de passa-montanhas e roupas de combate, uma recusa deliberada ao star-system e uma resposta direta ao estrago econômico deixado pelas políticas da era Reagan em Detroit. As máscaras não eram um truque publicitário: o UR apresentava o techno como uma arma, mirando tanto a indústria quanto a pista de dança, dando à música uma militância que quase nenhum outro ato house ou techno, antes ou depois, assumiu para si. Mills saiu por volta de 1991 para seguir carreira solo, mas os dois lados seguem em bons termos e o UR ainda o reconhece como fundador.
«Eu sabia que precisava de algo que encerrasse qualquer dúvida sobre se o techno tinha chegado. Uma nova forma de pensar a música de dança.»
Por que Jeff Mills construiu uma carreira fazendo menos, não mais?
Mills fundou a Axis Records em 1992 com Robert Hood. As primeiras faixas do selo, sobretudo a série «Waveform Transmission», reduziam o techno a um bumbo, alguns golpes percussivos e quase nada mais, uma estética que a Axis nunca abandonou de verdade. Para Mills, a limitação é justamente o ponto, não uma falta: «Nem consigo te dizer quantas faixas fiz com uma 909, e elas nunca soam iguais.» Ele ainda trata a Roland TR-909 como um instrumento de solista, não como um preset, e o mesmo instinto o levou a palcos inesperados: uma trilha ao vivo para «Metropolis», de Fritz Lang, em 2000, a encomenda orquestral «Blue Potential» com a Filarmônica de Montpellier em 2006, uma residência no Louvre, um disco em 2018 com o baterista afrobeat Tony Allen. Nada disso diluiu o techno. Tudo isso provou que as mesmas três ou quatro ideias sustentam tão bem uma orquestra inteira quanto um galpão vazio.
Isso tudo ainda importa, três décadas depois?
Ao longo de 2025 e entrando em 2026, Mills tem excursionado com «Live at the Liquid Room, Tokyo», seu mix de 1995 gravado na casa noturna de Tóquio que dá nome à gravação, pelos 30 anos, com datas em Londres, Osaka, Tóquio, Hong Kong e Paris construídas em torno de imagens inéditas daquela noite original. Eminem o citou numa música («se você nunca ouviu the Wizard, você não entende nada»). A França o nomeou Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras em 2017. Nada disso muda o que ele realmente faz num sábado à noite: três toca-discos, uma drum machine, um set pensado para ser recomposto ao vivo, não pré-mixado. Todo festival que hoje impõe uma cabine de DJ sem laptop, ou um palco techno de «três faixas, zero computador», está citando um regulamento que Mills escreveu antes de nascer a maioria dos seus programadores.



