Como uma mulher conquistou espaço nas cabines disco de Nova York nos anos setenta?

Sharon White nasceu em 1954 em West Babylon, Long Island, e começou a estudar percussão aos sete anos. Entrou no rádio nova-iorquino no início dos anos setenta e passou para as cabines de clube em meados da década, orientada pelo mentor Roy Thode num bar de Long Island chamado The Corral. Suas primeiras residências foram em bares femininos, depois em clubes gays do centro, o 12 West e o Flamingo, antes de conseguir uma cabine no Studio 54. Sua formação musical lhe deu uma vantagem que ninguém mais tinha na cena: ela mixava os discos na tonalidade certa, uma habilidade que, segundo ela, só percebeu ser rara quando outros DJs começaram a perguntar como fazia.

Por que o Paradise Garage teve apenas uma DJ mulher?

O Paradise Garage abriu no Soho em 1977 como a cabine de Larry Levan, e Sharon White estudava os sets dele na pista muito antes de tocar ela mesma ali. Décadas depois, quem escreve sobre a história do DJing ainda cita o mesmo dado: ela continua sendo a única mulher a já ter tocado naquele clube. Isso não é só um elogio a ela, é também um retrato de uma porta que continuou fechada depois dela.

O que aconteceu quando o Saint disse não às mulheres?

O Saint abriu em 1980, e o dono Bruce Mailman teria deixado a regra explícita: nada de mulheres na cabine. Sharon White conseguiu uma única data porque o diretor de iluminação do clube, Mark Ackerman, ameaçou pedir demissão se ela não ganhasse uma chance. Ela substituiu um DJ que estava saindo em 31 de janeiro de 1981, e a reação do público transformou aquela substituição de emergência numa residência que durou até o clube fechar, em 1988, com sets maratona de até 21 horas seguidas.

"Todo mundo acha que passei por uma luta enorme... eu só sabia que eles não estavam preparados para ver uma mulher naquele lugar, dentro de um clube."

É a própria Sharon White, anos depois, recusando a narrativa fácil da pioneira enquanto descreve exatamente a barreira que quebrou.

O que ela fez fora da cabine?

Sharon White também se tornou a primeira mulher repórter da Billboard no mundo, passando por cargos de promoção em gravadoras como a RSO Records (onde trabalhou com artistas como Thelma Houston e Diana Ross), depois na Polygram/Island, na Motown e na Profile Records. Ela parou de tocar em 1994, voltou em 2004, e desde então já tocou no Pavilion de Fire Island, no Santos Party House e em noites de reencontro ligadas ao legado do Saint. Está no Hall da Fama de DJs da Legends of Vinyl e recebeu, em 2016, o Heritage Gatekeeper Award do NY Black Pride Committee.