Metade da dupla eletrônica mais influente das últimas três décadas acabou de traçar uma linha clara sobre IA, sem precisar levantar a voz.
Na Art Basel, em 5 de agosto, Thomas Bangalter conversou publicamente com Yana Peel, da CHANEL, numa troca que passou pelo seu trabalho orquestral pós-Daft Punk e por um novo projeto imersivo. No meio disso, ele respondeu à pergunta que todo produtor anda se fazendo: a IA tem lugar no processo criativo dele?
O que exatamente Bangalter disse sobre IA?
A resposta foi direta. «Não estou realmente interessado no uso criativo da inteligência artificial, por muitas razões», disse ele a Peel. Não é uma frase qualquer: Bangalter é metade de uma dupla que passou 28 anos construindo uma mitologia inteira em torno de máquinas, robôs e tecnologia como ferramentas artísticas, do vocoder aos capacetes. Vindo dele, uma rejeição da IA como ferramenta criativa pesa de forma diferente do que a mesma frase na boca de um produtor desconhecido.
Por que ele acha que as palavras são o problema?
O raciocínio dele é específico, não automático. Ele descreve o próprio processo criativo como algo que opera num nível que «não se expressa por palavras», e defende que a parte mais valiosa da criação passa pela compreensão emocional, não pela expressão intelectual ou verbal. As ferramentas de IA, por sua vez, funcionam inteiramente por prompts: escreve-se o que se quer, em linguagem, e o sistema interpreta. Para Bangalter, essa dependência da instrução verbal é justamente o teto. Se o que realmente importa não pode ser dito em voz alta, também não pode nascer de um prompt.
«Não estou realmente interessado no uso criativo da inteligência artificial, por muitas razões.»
Ele leva o mesmo raciocínio para a arquitetura, que chama de «provavelmente a forma de arte mais criativa que existe», pela forma como funde ficção e realidade física, uma comparação que diz muito sobre o que Bangalter realmente valoriza: uma obra que se habita, não uma obra que se descreve.
O que Bangalter tem feito desde o fim do Daft Punk?
Desde a separação da dupla em 2021, Bangalter se afastou quase por completo da música de clube. Ele compôs o balé «Mirage», do qual saiu o álbum «Mirage: Ballet for 16 Dancers» em junho de 2026, e na Art Basel está por trás do Warehouse Artefacts, um encerramento imersivo de som e arte criado com o artista visual Julien Charrière e Rampa (Keinemusik). Um registro bem diferente do robô-pop do Daft Punk, mas com um fio condutor constante: Bangalter continua escolhendo formatos, composição orquestral, balé, instalação imersiva, que são físicos e coletivos, e não guiados por prompt.
Essa é a posição geral da indústria sobre IA?
Não, e esse é o ponto principal. Os comentários de Bangalter chegam a uma cena realmente dividida. Skrillex expressou uma reserva parecida, dizendo que o conteúdo gerado por IA carece da conexão humana necessária para que o ouvinte se sinta «visto» por um artista, enquanto muitos produtores já usam sem hesitar ferramentas de IA para separar stems, masterizar ou desenhar som. Bangalter não está impondo um novo consenso: ele soma uma das vozes mais fortes e credenciadas ao lado que considera criatividade e prompt fundamentalmente incompatíveis.



