Nesta semana, William Orbit está sendo lembrado como o homem que fez Madonna soar como uma rave. Não está errado, mas deixa de fora a parte que mais importa para quem realmente acompanha música eletrônica: Orbit não descobriu a produção eletrônica para o pop ao se sentar em estúdio com Madonna em 1997. Ele já vivia dentro dela havia uma década, à frente de uma gravadora nascida da mesma cena que deu ao Reino Unido o acid house.
Quem era William Orbit antes de Madonna?
No fim dos anos 1980, com o acid house varrendo os clubes britânicos, Orbit fundou a Guerilla Records e a usou como base para seu próprio projeto, Bassomatic, construído em torno da vocalista Sharon Musgrave. 'Fascinating Rhythm', do Bassomatic, subiu ao Top 10 britânico em 1990, um sucesso de verdade que saía direto do som das warehouse parties, não apenas inspirado por elas. A Guerilla também não era uma gravadora de vitrine: publicava os britânicos Spooky e React 2 Rhythm ao lado dos nomes da house de Chicago Felix da Housecat e DJ Pierre, ligando o cantinho londrino de Orbit diretamente à linhagem americana da qual o próprio acid house nasceu.
Como o Strange Cargo virou o modelo do Ray of Light?
Paralelamente à Guerilla, Orbit passou os anos 1990 construindo a série de álbuns Strange Cargo: discos ambient, downtempo, sem nenhuma pretensão comercial, voltados inteiramente para textura, atmosfera e espaço sonoro. Foi essa caixa de ferramentas que ele levou para o estúdio com Madonna. Ela mesma descreveu as sessões sem rodeios: "A gente acabava com faixas trance de oito minutos e depois ia adicionando e tirando até ter versos e refrões de verdade." É o método de um produtor de chill-out, não de um produtor pop, aplicado a um disco que venderia milhões de cópias e ganharia Grammys.
O que o Ray of Light realmente mudou na produção dance?
O Ray of Light saiu em 1998 como um verdadeiro cruzamento: arpejos trance, camadas ambient e produção eletrônica sequenciada, vestidos de álbum pop de massa, e venceu o Grammy de melhor álbum pop. Provou a todo A&R que observava que os sons saídos da cultura de clube britânica podiam sustentar um disco pop global, não só um remix em vinil. Orbit seguiu com o '13' do Blur em 1999, empurrando a banda para a eletrônica, e com 'Pure Shores' do All Saints, número um britânico que levou seus instintos ambient para a trilha sonora de um filme de praia sem perdê-los pelo caminho. Britney Spears e Pink depois o procuraram, cada uma à sua maneira, atrás da mesma textura.
"Ele tinha um jeito verdadeiramente único de olhar para a música. Nunca seguiu o caminho óbvio. Desafiava constantemente as convenções, abraçava o inesperado, e criava sons que pareciam anos à frente do seu tempo."
É o DJ e produtor Ferry Corsten quem presta essa homenagem nesta semana. É o julgamento de alguém que vem da cena de onde Orbit saiu, não do mundo pop pelo qual ele é mais lembrado.
E agora?
Orbit continuou lançando discos solo bem depois do auge de seus anos como produtor pop, incluindo 'Pieces in a Modern Style' em 2000 e 'The Painter' em 2022, e ainda estava creditado em 'Testament', o álbum de 2018 do All Saints. O comunicado da família foi curto: "Ele fará muita falta para nós e para tantas pessoas cujas vidas ele tocou com sua música, amizade e generosidade." Nenhuma causa da morte foi revelada.



