O segundo acordo da Suno com uma major saiu em 12 de agosto, e se parece bastante com a fórmula que a empresa está tentando agora vender para o resto da indústria: licenciar o catálogo, deixar os artistas darem consentimento e resolver o passado.

O que Suno e BMG realmente combinaram?

O acordo cobre todo o catálogo de gravações e edição da BMG, mais de três milhões de músicas e composições ligadas a artistas como membros dos Rolling Stones, Bruno Mars, John Legend, Bebe Rexha, Pitbull ou Lewis Capaldi. Mas um catálogo «coberto» não significa um catálogo liberado em bloco. A Suno precisa que cada artista e compositor dê consentimento individual antes que seu trabalho possa treinar os modelos ou aparecer em um resultado gerado, e a BMG deixa claro que só quem aceitar verá compensação. O CEO da Suno, Mikey Shulman, apresenta isso como a construção de «novas experiências que dão a artistas e compositores uma escolha real, geram novas receitas e fazem da música uma parte maior da vida das pessoas». A vice-presidente executiva de marketing global e streaming da BMG, Celine Joshua, resume o argumento sem rodeios.

"Escolha é o princípio norteador. Este acordo estabelece proteções sólidas."

O consentimento prévio resolve mesmo o que levou a Suno aos tribunais?

Aqui está a parte que deveria deixar os artistas em alerta: o mesmo acordo que introduz o consentimento prévio daqui para frente também «resolve» o uso anterior e não autorizado que a Suno fez do catálogo da BMG para treinar seus modelos existentes. Em termos simples, a BMG aceita um acordo de licenciamento em troca de não processar a Suno por um treinamento que já foi feito sem permissão. Isso não é bem consentimento, é um perdão retroativo embrulhado num anúncio de parceria. O mecanismo de opt-in passa a legitimar a próxima rodada de treinamento, enquanto a primeira é discretamente absorvida nos termos do contrato. Se os compositores da BMG vão ver dinheiro de verdade depende inteiramente de uma conta de royalties que nenhuma das duas empresas divulgou.

Por que Universal e Sony continuam resistindo?

A Warner assinou com a Suno em novembro de 2025. A BMG acabou de seguir o exemplo. Universal Music Group e Sony Music Entertainment não assinaram, e continuam processando a Suno por violação de direitos autorais. Isso é poder de barganha, não teimosia: cada major que assina torna o passado não autorizado da Suno um pouco mais aceitável aos olhos da indústria, o que enfraquece o argumento de UMG e Sony de que houve roubo. As majors que ainda estão nos tribunais apostam que uma decisão judicial, ou um acordo bem mais generoso, vale mais do que a taxa de royalties que a BMG acabou de aceitar.

Por que isso importa

Esse acordo decide se o treinamento de IA vai virar uma linha de royalties negociada pelas gravadoras em nome dos artistas, ou uma batalha jurídica que cada dono de catálogo terá de travar sozinho. A BMG acabou de apostar na primeira opção.

O que achamos

Um consentimento que chega depois que seu catálogo já foi usado sem autorização não é uma escolha, é um acordo extrajudicial disfarçado de manchete de marketing. O dinheiro é real para os artistas que topam o acordo, mas o discurso favorece mais a exposição jurídica da Suno do que o controle criativo de qualquer um.