Como Halim El-Dabh desenvolveu a música concreta no Cairo?
Em 1944, o compositor nascido no Cairo Halim El-Dabh pegou emprestado um gravador de fio nos escritórios da Rádio Oriente Médio e o levou a um zar, cerimônia pública de cura e exorcismo construída sobre transe, cantos e tambores. Para se aproximar o suficiente, ele teria se disfarçado com um niqab para gravar de perto as vozes das mulheres. De volta à estação, manipulou a gravação manualmente: eliminou as frequências fundamentais para isolar os harmônicos, remodelou a reverberação, sobrepôs choques e ritmos até que o som da cerimônia virasse outra coisa completamente diferente. Batizou o resultado de Expression of Zaar e o apresentou naquele mesmo ano numa galeria de arte do Cairo.
“Eu me concentrei naqueles tons agudos que reverberavam, com seus próprios ritmos e seus próprios choques.”
El-Dabh depois dirigiu o estúdio de fita do Columbia-Princeton Electronic Music Center, em Nova York, entre 1959 e 1961, e lecionou música e estudos pan-africanos na Kent State University por mais de duas décadas. Morreu em 2017, aos 96 anos, considerado por muitos historiadores um dos verdadeiros pioneiros da música eletrônica, um legado construído inteiramente a partir de um gravador de fio, uma cerimônia de rua no Cairo e seu próprio ouvido para o som.
Quais outros pioneiros africanos já construíam isso antes de ter nome?
O Cairo não estava sozinho. Francis Bebey, escritor, radialista e músico camaronês radicado num apartamento parisiense, começou a distorcer eletronicamente uma sanza (piano de polegar) em 1974 e lançou no ano seguinte seu primeiro álbum com sintetizadores e teclados, Savannah Georgia. Em 1976, em Fleur Tropicale e La Condition Masculine, ele gravava tudo sozinho, sanza e flauta contra sintetizadores, teclados elétricos e caixas de ritmo programáveis.
Na Nigéria, o engenheiro William Onyeabor seguiu um caminho completamente diferente. A partir de 1977, ele escreveu, tocou, gravou, prensou e distribuiu sozinho nove álbuns de synth-funk pelo próprio selo, na própria fábrica em Enugu, dominados por caixas de ritmo e baixo analógico, mais próximos em espírito do Parliament-Funkadelic do que do afrobeat de seu compatriota Fela Kuti. Nunca os levou em turnê e raramente se explicava. Em 1985, convertido, abandonou a música por completo e recusou quase todos os pedidos de entrevista pelo resto da vida, até morrer em 2017, dois anos depois de a reedição Who Is William Onyeabor?, da Luaka Bop, finalmente apresentar seu catálogo a um público mundial que nunca tinha ouvido falar dele.
Três países, três homens completamente separados, sem qualquer contato entre si: Egito, Camarões, Nigéria. Isso não é coincidência de três excêntricos isolados. É a vantagem paralela de um continente inteiro.
Como esse avanço africano alimentou a música house?
Nem El-Dabh, nem Bebey, nem Onyeabor buscavam inventar a house, e nenhum deles é um elo direto da própria genealogia de Chicago: o pulso eletrônico do disco, as caixas de ritmo Roland, as montagens em fita de Frankie Knuckles no Warehouse. Mas o instinto de fundo é idêntico: pegar uma gravação ou uma máquina feita para outra coisa, dobrá-la, colocá-la em loop, reduzi-la ao essencial, e deixar que a própria manipulação vire música. Esse instinto criou raízes numa rua do Cairo em 1944, passou por um apartamento parisiense onde um camaronês gravava Fleur Tropicale, e por uma fábrica em Enugu que não prestava contas a ninguém, décadas antes de os DJs de Chicago descobrirem de forma independente esse mesmo instinto nos breaks da disco e nas caixas de ritmo. Reedições como Who Is William Onyeabor?, da Luaka Bop, desde então levaram esse legado africano diretamente às cenas deep, tech e afro house que ainda hoje o samplam e o citam.



